Lágrimas das deusas

16/05/2006 20:27
Passou por ela... uma cara de quem nasceu apenas para varrer as ruas... a pele nutrida com o arroz e o feijão diário, tinha mapas, sinais, marcas... de fome, de dor, de ignorar quase tudo que poderia mudar a sua vida. Não sentiu pena... pessoas são como são e pronto! Dentro de si convulsões. Sentimentos se atropelam e a quebram na alma. Não quer mais pensar em nada... não quer pensar. Pra que pensar? A vida pra ela tem que ser como a vida para as árvores. Estar sempre ali, oferecendo sombra e frutos, mas sozinha, como sempre foi, como nunca deixou de ser... E isso é o que é, como “uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa”...
Sorriu quando uma observadora aluna lhe disse: “Professora, achei tão poética a cena em que a senhora teve que se abaixar no ônibus para apanhar aquele monte de livros que caiu de sua bolsa... pensei em quanto conhecimento a senhora carrega todos os dias para fazer chega-lo a nós... tanto peso, tanta vontade e nós, muitas vezes, só piscamos os olhos.”
Pensou que, na verdade, poético é o olhar de uma mocinha sensível que quis ver por um instante um pouco além do que os olhos mostram. A varredeira, a aluna, a árvore, a rosa e a professora são todas a mesma coisa... e estão no mundo, na poesia dos dias...

enviada por Perséfone






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