Lágrimas das deusas

19/05/2006 18:26
De que adianta toda essa poesia na minha alma se não consigo transformar as lágrimas no rosto em cristalina água a deslizar num finíssimo rochedo em meio ao mar infinito de ilusões desmedidas... linguagens e sentimentos desencontrados... olhos se entreolhando afastados... lados opostos, equivocadas direções.
Por que não tocar a estrela mais próxima se parece com lutar para ultrapassar os próprios limites? Esfrego a minha cara na lua pra ver qual é o formato do meu rosto e só vejo as crateras dela mesma... talvez sejam minhas... Uma procissão de gafanhotos passam sob meus olhos e eu queria ser a santa que eles poderiam carregar para algum lugar sagrado e receber suas oferendas e sua devoção incondicional. Eu queria só poder voar pra sumir no céu e ser o céu para sempre... asas de ar... sonhos de ar rarefeito... Toco o céu agora com as partes descobertas do meu corpo... esse vento, vindo, vendo, venenoso... ponho a máscara e respiro artificialmente... instinto de sobrevivência!
Flores de pedra brotam do chão da mão humana... formas infinitas, cinza-cor-pedra. Vejo a delicadeza nas formas brutas e sólidas, na curva da curva: copo-de-leite, dália, rosa, violeta, miosótis, margarida, lírio... flores altas, flores colossais, pesadamente flutuam no jardim dos amores em meio a tantas outras flores e de todas as cores...
Um ombro veio até mim e pude não chorar em paz... Fotos de montanhas e casas entranhadas nas montanhas, famílias se unindo e se despedindo... imagens de crianças brincando, carros passando, céu azul limpinho... dimensão palpável do universo que os meus olhos alcançam nus e marejados. Procuram me ver no mundo, parte de tudo e em todos... mas se fecham pelo avesso e atravessam a correnteza do rio de águas profundas e afundam o sol que sempre existiu ali, mas sabem que é em vão, porque ele volta sempre, sempre, sempre...


enviada por Perséfone






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