24/03/2006 15:59
Clara tem sempre uma festa pra ir, mas nunca vai. Foi convidada pra comemorar o aniversário do amigo Prema, num Sábado quente, à noite, num bar da moda em Ouro Preto, e apesar de todas as promessas de aparecer, Clara já sabe que não vai. Clara nunca quer saber de festa, badalação, gente desconhecida, multidão. Parece um bicho do mato feito seus alunos que pegam o ônibus escolar na beira da estrada. Eles saem do mato feito coelhinhos, esquilinhos. O asfalto vazio ao longe, mas de perto repleto de bichinhos ariscos de mochilas nas costas. Entram correndo. Uns sorrindo com o olhar baixo, outros gritando nomes amigos, fazendo festa e alguns sérios, mal cumprimentam motorista e professores.
No caminho de volta nunca parecem cansados. Falam alto, andam pelo ônibus e paqueram poltronas, colegas, flores, lua, professores. E vão descendo aos poucos, aos grupos, coelhinhos, esquilinhos, gatos da noite, instintos despertos embreados na noite, no mato, caminho de casa. Casas-tocas ao longe, muito longe umas das outras. Um rio no meio de tudo. Montanhas, plantações, gado. Uma capela, sempre uma capela. Afinal é Minas Gerais.
Clara lembra-se de quando ia pra escola. Ia a pé, não era longe. Levava a mochila pesada com todos os livros que usava. Nunca aliviava a carga levando apenas o necessário pra aula do dia. Levava tudo. A mãe nunca reparava que a menina carregava peso demais num corpo magro demais e que a coluna certamente estava sendo lesada. Clara tinha medo de tirar os livros da mochila, pois sabia que poderia não encontrá-los inteiros quando voltasse. Dividia o quarto com os irmãos e eles trituravam tudo que viam pela frente. Clara preferia não arriscar. Carregou aquele peso, a cada ano mais pesado, por todo o ensino fundamental. Clara sempre amou estudar. Aprendeu a ler sozinha, aos cinco anos de idade. Estava sempre observando as figuras das revistas em quadrinhos do tio e desejava ardentemente decifrar o que diziam, sobre o que conversavam. Até que foi apresentada às letras e descobriu que poderia juntá-las e formar palavras. Clara descobriu um mundo mágico: a leitura. Devorou, desde então, tudo que encontrou pela frente. Lia a qualquer hora e em qualquer lugar. Lia com luz e até sem luz, o que provavelmente lhe custou a saúde perfeita dos olhos. Depois clara descobriu que também podia escrever estórias e aí percebeu que faria isso a vida toda. Na sua infância sem televisão, Clara encontrou seu mundo, gostou dele e percebeu que ali permaneceria até o seu último dia.
Clara freqüentou o Museu-Escola, um projeto social patrocinado pelo IPHAN, que tinha como objetivo ensinar às crianças das cidades históricas a História e a importância da preservação do patrimônio histórico da cidade onde tinham nascido. Clara amava passar as suas tardes com as outras crianças (a faixa etária era entre os 7 e 15 anos, Clara freqüentou dos 8 aos 12 anos, quando acabou) fazendo as atividades e brincando. Até as brincadeiras eram relacionadas à História de Mariana e Ouro Preto. Clara adorava todos os monitores e eles também tinham muito carinho pela menina tímida, bonitinha, doce, esperta e perguntadeira que nunca faltava a nenhuma atividade marcada e que sempre fazia tudo com esmero e pontualidade. Clara foi até escolhida para ser a criança que representaria todas as outras, de todos os Museus-Escolas de Minas, para entregar um trabalho feito em conjunto, à Primeira-dama do Brasil na época, dona Marli Sarney, que viria em visita, à Mariana e Ouro Preto. E foi oque aconteceu. Clara, toda boba, aos dez anos, estava ali no Museu da Inconfidência em Ouro Preto, em meio a tanta gente importante, entregando à simpática senhora, um pacote que escondia um tesouro: os sonhos de tantas crianças, privilegiadas, por terem na época, quem se importasse com elas e lhes dessem a chance de ao menos sonhar. Em meio aos flashes dos jornalistas presentes, Clara viveu seus dois minutos de fama e sentiu-se feliz em sua primeira embaixada. Bons tempos aqueles... pena que um projeto tão bom como o Museu-Escola tenha durado tão pouco (cerca de 5 anos). Perdeu o patrocínio e teve que despedir os professores. E crianças como Clara ficaram tristes com as suas tardes vazias e longas de volta.
Clara acorda do cochilo e percebe que já está em Furquim (distrito de Mariana) para mais um dia de trabalho. Agora é uma mulher feita, com responsabilidades, problemas, sonhos e um amor no coração. Clara gosta de Ter crescido apesar da saudade da infância. Agora pode desfrutar de outros tesouros que só a maturidade oferece.
Clara não vai mesmo à festa porque dentro dela está rolando uma grande festa, a maior que pode existir na vida de um ser humano: o amor. E Clara só quer ser e estar pra vive-lo intensamente. Clara está finalmente amando. E adorando. Está feliz como foi feliz em pedaços da sua infância.
enviada por Perséfone
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