10/11/2005 17:32
Mais uma vez a porta da garagem travou. Preciso avisar a empresa de segurança para vir dar um jeito no problema. Todos sabem que detesto chegar atrasada para qualquer compromisso. O que foi aquilo ontem no meu quarto? Pela primeira vez vi-me fugindo literalmente do meu marido. Ontem, pelo menos ontem, não fui capaz de mentir. Recusei seu abraço. Sei bem o porquê. Eu a vi por alguns segundos naquele ponto de ônibus. Como estava diferente! Os cabelos mais longos, a roupa, o semblante, tudo nela não estava mais familiar. Doeu tanto a certeza de que jamais será minha. Por Deus, a culpa é minha, eu sei. Ela tentou algumas vezes chegar até mim, arriscou-se, ousou, demonstrou seus sentimentos, mas eu, covarde, fiz-me de boba e hoje vejo que tamanha bobeira condenou-me a passar por ela como se fosse uma mera conhecida, baixando o olhar, evitando o confronto entre nossos olhos pra que ela, nem por um segundo, perceba o meu amor. Como fui tola! Tive aquela menina maravilhosa em minhas mãos, mas meu orgulho, meu medo e minha negligência a deixaram escapar. Sei que não terei mais chance.
Levo minhas filhas ao balé e enquanto as espero, sumo no meu carro ouvindo canções que ela nem sabe que separei pra pensar nela. Pelo menos assim a tenho próxima e ardo na febre de imaginá-la comigo. Não devia sair tanto. Preciso evitar estas ruas. Não quero mais vê-la linda, especial e longe demais de mim. Depois que der minhas aulas, irei pra casa dormir e fingir a felicidade que convém.
O silêncio é a base das palavras, é a base dos sons. Sim, sim, eu sei, mas fico pensando: E o que será a base do silêncio? Se o silêncio é fundador ele não tem base, mas como algo pode existir sem base? Devo estar raciocinando lento e fico perdendo tempo pensando em coisas inúteis que mesmo sendo assim não consigo parar de pensar.
A censura é um silêncio imposto. Você tem o que dizer, mas não pode fazê-lo por medo de punição. É incrível como podemos ser atingidos tanto pelo que dizemos quanto pelos discursos alheios. Pior ainda, até mesmo mais grave, é sermos atingidos pelo silêncio.
O silêncio é como o mar calmo, por isso é fundador, é base. Quando se transforma em ondas já não é mais silêncio. Agora é palavras, sons. Quando perdura no tempo e no espaço acaba sendo ensurdecedor. Bem mais que todos os trovões do mundo soando ao mesmo tempo.
Seria o discurso uma ausência de silêncio? Seria intervalo entre um silêncio e outro? Ou seria um silêncio ao avesso, ausente de si mesmo?
O que posso falar está intimamente ligado ao que posso calar. Se faço uma coisa ou se faço outra nada mais fiz que praticar silêncio puro ou silêncio transformado.
enviada por Perséfone
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