31/10/2005 16:17
Ao meu irmão, Maurinho
Pedaços de ser humano pelo chão. Briga entre irmãos. Quanto mais se ama mais se fere. Tanto busca que se perde. Onde está você aí dentro, que se esconde, onde, dentro de você? E esse rastro de fumaça, essa névoa, por que tanta escuridão se só quero olhar pra você? E te achar, te trazer ao caminho de volta, pois o mundo dá volta e você tem que se desprender da carceragem invisível que criou pra viver...
Colo quente, sua casa-útero, a mãe, sua mãe, seu abraço, o abraço que ela é e que só existe pra te acalmar. As suas lágrimas descem pelo avesso dos seus olhos, te fazem rio seco morrendo no mar; te fazem pássaro voando enquanto as asas queimam no ar.
O que será do chão sumindo sob seus pés? Este chão não se cansa de inventar desculpa pra sempre te acompanhar... Menino falante mudo... sua solidão quer conversar. Às vezes ela até grita, mas aí você sai e procura a companhia dos zumbis e mais uma vez adia o dia de estar frente a frente com o seu espelho e a sua voz. Os dias passam sem que você perceba que existe um mundo e uma vida que é pra você. O que não entende de jeito nenhum é que quem te sorri e te acolhe na rua sequer sabe a cor dos seus olhos. Já quem te bate e se zanga morreria por você... Se você sofre, a gente sofre. Se você ganha, a gente ganha. Se você se mata um pouco a cada dia, a gente vai junto com você. Não somos piores, nem melhores que você; somos você uma coisa só! E só vamos estar bem quando você estiver bem.
Neste dia de outubro ainda escrevi
Vestígios de você naquele maldito computador logo pela manhã. Em mim várias sensações, mistura de saudade, amor, esperança, tristeza, frustração. A quase certeza da desilusão, por um minuto permiti-me acreditar que você me ama profundamente e senti-me incrivelmente feliz. Mas o peso dos meus pés chamaram-me à realidade e fui ler sobre a política nacional.
Num caminho solitário da cidade piso um tapete de flores amarelas de ipê. Um raro vento me faz companhia enquanto libero alguns pensamentos embolados. Mantenho o controle de tudo sossegada. Não tenho pressa nestes dias que são meus, inteiramente meus.
Vi mais um de seus trabalhos ainda que de longe e de um único ângulo. Achei lindo! Diferente de tudo que já vi. Você sabe que vivo em outro mundo... mas a sua obra é uma obra de arte. Sinto orgulho de você!
Uma procissão caminha pelas ruas desta religiosa cidade. Já é noite e vejo as velas, centenas de velas flutuando em filas indianas. Mantras em latim ressoam, sinos tocam. Sussurros femininos cantam sua fé. Tenho a impressão de estar vendo o santo de barro cantar e dançar. Paro e sento e santos fazem festa em mim. Eu até rezo. Peço amor, paz, saúde e proteção para mim e para o mundo. Compro uma cerveja. Bebo. Vou pra casa e fecho mais um dia neste mundo.
enviada por Perséfone
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