Lágrimas das deusas

05/09/2005 14:21

Ouvi correntes e ferros. Chuva da grossa caindo. Eu dormia e acordova, acordava, acordei. Escuro. Portas fechando e abrindo. Uma voz suave cantava enquanto abraçava meus joelhos e chorava uma sensação de saudade. Um rosto. O rosto. Derreti-me no vinho.
Cenas urbanas na cabeça. Uma praça grande. Luzes por todos os lados. Um oceano de carros e gente. Prédios vazios. Procurava na fumaça um sinal. Um caminho a seguir. Um nome de avenida. Um cruzamento de ruas. No centro. Na periferia da cidade. Minhas pernas caminhavam ao lado de outras. Placas e sinais de trânsito. Sempre um caminho a seguir. Eu indo. Em frente? Pra trás? Não sabia. Não importava.
Minhas mãos. Bêbadas mãos. Tateando o escuro. Prendendo-se em fios soltos, imaginados. Minha boca sorrindo. Bafo de vinho. Olhos fechados vendo tudo. Redor de mim, sim, não, porquê, aonde, com quem, por que, certezas. Olhavam-me. Não viam-me. Cabelo molhado. O vento secando. Perfume espalhando. Agora estava claro. Seguia em frente. Descia. Uma portaria. Entrei. Encontro. Sorrisos. Uma porta se abriu. Ambiente anos 70. Chá. Bebi a música e devorei as fotos. Achei uma capa para o meu livro. Décimo-quinto andar. Bom pra se matar. Alguém o faria?
Ela tem medo dos vultos na cidade. Esculpe moças em janelas de argila. Corações emendados. Carros de boi. Tem aversão à tecnologia. Medo do novo onde tudo é velho e conservado. Ela atende ao telefone e fica brava. Não gosta de cobranças.
As vozes discutem do outro lado da parede. Uma quer se foder. A outra quer proteger. O que salva um enterra o outro. Lágrimas. Forças repelentes se medem. Não tem vencedor. Tem dor.
Ouço a música mil vezes. A mesma música mil vezes seguidas. Obsessão no universo. My Immortal.
A tempestade continua a lavar a cidade. Aqui dentro o sol. Um par de olhos, meus sóis. Iluminam-me.
Quero o caminho de volta. Minha casa. O olhar doce e ingênuo da minha mãe. A vivacidade do meu sobrinho. O grande coração da minha irmã. A rebeldia dos meus irmãos. A força do meu cunhado. Meu canteiro. Minhas flores. Minha cama. Meus sonhos. Minhas montanhas. Minha pobreza material. A fome de tudo. Sou um ser faminto de tudo.
Tenho o direito de ser pobre. De viver perto de barracos e gente sem nada. Eles estão por todos os lados, mas são ignorados. É o lixo urbano. A cachaça ruim no boteco pra aliviar a fome e esquecer o nada que se é, tudo que se tem ao alcance. As drogas. A companhia de predadores. É tempo demais. O vazio é vazio demais. Olhar a si mesmo dói muito mais. Ser tratado como gente é sonho. Ninguém acredita que alguém ali é capaz de mudar o mundo. Eu acredito. Acredito no ser humano que tem fome na alma. Ele tem que buscar tudo desde o início. Cavar fundo. Descobrir tesouros dentro de si. Fora. Nos outros. Nada é fácil. Até a mais simples informação custa caro. Uma noite inteira de frio. Só numa rodoviária. Sem dinheiro pra comer e dormir numa cama quentinha. Mas vale a pena. Tudo em sua vida vale a pena. É um grande ser humano. Esculpido pelo tempo. Pelas adversidades. Sabe muito de tudo. Sente tudo com mais intensidade que os outros. Vê o que os demais não enxergam. Tem asas pra voar mais alto. E pode escolher. Fazer. Não fazer. Mas saber.
Ama pra sempre. Aconteça o que acontecer. Passe o tempo que passar. Presente. Ausente. Apenas ama.
É o mais sozinho dos seres. Mas aprecia a própria companhia. E sabe tudo que tem importância neste mundo. Vive um dia de cada vez. Pega tudo que precisa. Ama tudo que ja´conquistou. Sonha. E seu castelo vai crescendo aos poucos.
Sei que sou louca. Misturo primeira e terceira pessoa num texto. Mas não me importo com a crítica. Escrevo para as almas sensíveis.
enviada por Perséfone






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