29/08/2005 18:36
Num canto do quarto escuro minha cama me desalinha. Sou olhos a olhar minha mãe se mover mais a frente. Calada, inquieta, ofegante, asmática, perdida no mundo rezando. Nas mãos segura santinhos e orações e o terço e o lenço. Em sua cama apenas um lençol branco e dois enormes travesseiros sobrepostos. Ela só dorme em alturas. Depois do ritual religioso, tonta, sozinha, liga a TV ignorando minha presença adormecida. Olha a tela alheia a ela. Ouve vozes. Encosta nos travesseiros por um tempo, depois senta na cama. Abaixa a cabeça e entrelaça as mãos. Observo a sua corcunda e sinto pena dela. Parece sempre depressiva. Parece sempre uma sombra. Sonha com valores que não conhece. Faz planos sem acreditar realmente num futuro. Passa o resto do dia entregue a todo tipo de novela.
A realidade que pesa à minha volta não me deixa dormir em paz uma só noite. Sobressaltos acompanham meu sono. Sinto-me prisioneira de uma dimensão que me é familiar mas ao mesmo tempo desconhecida. Sinto tudo que acontece. Principalmente as dores. Passam-se cinqüenta anos em cinco segundos e me alivio num grito mudo. Luto com forças imensas e mais uma vez escapo. Consciência volta trazendo a droga diária da rotina preenchida com vários planos de fuga, todos anestésicos que tomo aos poucos pra não vomitar.
Escuto o choro do meu sobrinho no banheiro. Ele está com medo da chuva e quer se ver a salvo dela. Quer ver a salvo todos nós que ele conhece e ama. Temos que ficar perto dele. Vamos, minha irmã e eu, fazer a sua vontade. Mas ele ainda chora. Chama pelo pai que está no quintal. Pensa que o bicho papão Chuva o pegou e chora ainda mais alto gritando: Papai, papai, a iuva, iuva! Tentamos acalmá-lo dizendo que o pai está bem, mas ele só grita: Papai, papai, a iuva, iuva! Só acredita no que os olhinhos vêem. Um pequeno existencialista. A chuva passa mas deixa os trovões nas nossas consciências. O pequeno Rafael agora dorme tranqüilo. E nós ligamos a TV.
enviada por Perséfone
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