Lágrimas das deusas

29/06/2005 11:16
Vazio.



Suor e perfume. Impregnando meu corpo e meu quarto. Peles escorregadias acariciam-se mansamente. Num vai e vem primitivo.



Cinzeladas delicadas. Encontrei um molde vivo para minha arte. Uso
dedos como cinzéis. Preparo o molde com beijos. Quero realidade.
Arrepios. Uma obra perfeita.



Cheiro de incenso no ar. A pouca luz vem de um mosaico iluminado, que
se derrete aos poucos. As cores vão ficando mais vivas. Os pedaços
coloridos se consomem pelo fogo.



Trabalho intensamente. Tenho fome. Quero um alimento exótico. Inicio
seu preparo. Enquanto o molde vai tomando forma, procuro pelo sal que
se esconde nas entranhas. Dedos e língua sabem onde encontrá-lo.



Misturo com mel. Experimento. É exatamente o sabor que eu procuro. Hora
de saciar a fome. Sugo, mordo, calmamente. Bebo cada gota. A fome
aumenta. A fonte começa a estremecer. Lavas são atiradas na minha boca.
A loucura vai tomando conta de mim. Deixo. Não preciso de lucidez.



A estranha, linda e sensual escultura a tudo observa. Seus olhos em estado e graça.



O vulcão explode dentro da minha boca. Meu sorriso está lambuzado de
sal e mel. Abraço com força aquele corpo. Minhas costas ficam em
farrapos.



Percebo que estou voltando de outro mundo. Não quero chegar. Não quero
abrir os olhos. Não quero a realidade. Sinto que meus braços estão
preenchidos com algo. Nada parecido com aquele corpo. Meus olhos
insistem em abrir. A realidade se impõe, sem piedade. Um travesseiro
está amassado entre meus braços. Aperto-o com força e o arremesso
contra a parede.



O vazio se instala. Fundo. Dolorido. Real.



Acordo. Minha boca ainda guarda o sabor exótico.



A escultura? Ficou lá, guardiã de segredos. Lembro do molde. Será que
ele conseguiu imprimir sensações? Virou pó? Ou uma obra inacabada?

Ana Terra
enviada por Perséfone






Feed: Seja avisado quando este blog for atualizado :: (O que é isso?)