22/06/2005 19:46
Meus passos pesados denunciam o frio na minha alma. Caminho no escuro da estrada que já conheço de cor e reparo no lago à esquerda, na árvore solitária à frente das luzes da cidade, à direita, e no coqueiro sufocado no telhado do velho prédio na frente. São os mesmos de sempre, mas agora eu vi. Vi, porque cansei de olhar só pra mim e morrer nos mesmos buracos negros. Vi, porque levantei o rosto e sequei as lágrimas tentando sorrir contemplando outro nada. Um nada mais completo, mais brilhante e muito mais reconfortante que o meu habitual cheiro de jasmim. Conheço um cara que diz a toda hora que quer viver tudo agora porque não sabe se vai amanhecer. Achava uma obsessão pela pulsão da vida e por isso mesmo não dava muita importância. Mas no fundo eu pensava a respeito daquilo e tentava compreende-lo. O resultado é que acabei achando tudo uma bobagem. O que adianta correr pra viver tudo hoje se isso simplesmente é impossível? Não tenho que viver tudo hoje... não sei o que é viver tudo... não sei o que seja tudo.
Paro e sento. Fotografia. Melhor, fotografias. Meus olhos clicando estáticos. Faço tanta confusão com as coisas simples e deixo tão organizadas as complexas. Sou um bolinho no mundo. Estufado e podre. Rolo escadas abaixo por mais de uma hora e chego. Não sei nome de nenhum lugar. Quero esquecer todas as pessoas que conheço e não conhecer mais nenhuma. Talvez eu devesse chorar mais um pouco, mas não consigo. Queria ser só um daqueles vasos de flores na janela. Pra ser mais sincera, eu queria mesmo é ser as flores, pra morrer de sede ao sol quando me esquecessem em alguma viagem divertida. Acho que deveria morar mais perto do mar e ter todo aquele nada pra olhar, por horas, enquanto as rugas tomassem meu rosto.
Vou simplesmente mudar de tom. Quero que todas as músicas deste dia toquem na minha alma de uma só vez neste instante. Sei, não haverá harmonia. Mas haverá um estrondoso barulho. Barulho com o barulho de mim e uma festa. Finalmente um sorriso na minha cara e eu desembaçando as paisagens, descascando tudo e me abrindo inteira feito um girassol. Mudar o mundo é simplesmente desviar o olhar e ver tudo que se oculta sob a aparência de nada. É insistir. Avante.
Enxergo o verde mais verde das folhas e o meu mundo fica colorido. Deixo o sol entrar por todas as minhas fendas e matar todo esse bolor que me devora. Continuo um bolinho no mundo. Apetitoso e lindo. Já posso concordar com o meu amigo. Viver tudo hoje. Tudo que é tudo hoje. Não mais fotografias. A vida agora é cinema. E sou a estrela maior.
Asas me levam às nuvens de onde posso contemplar as flores. Envio beijos. Amo todo mundo que conheço. Amo o dentro e fora de mim. Amo.
enviada por Perséfone
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