Lágrimas das deusas

13/05/2005 18:15
Sob o sol da Índia

Conheci Rennu num dia de sol. Era uma festa entre as tribos Vihjn e Maneiiy que comemorava mais um ano de convivência harmoniosa entre as nossas castas. Rennu era a mais colorida vihjn ali presente. Em seus olhos cor-de-fogo vi um espelho que fixava os meus. Em meio à dança ficamos tão próximas que podia ouvir o coração dela bater. Num repente demo-nos as mãos numa junção das cores da nossa terra-mãe, a Índia. Em meio a vermelhos, laranjas, amarelos, azuis, rosas e marrons encontramo-nos face na mão, lábios nos ombros dos cinco braços de Prema a envolver cinturas morenas. Senti sua saliva quente penetrar meus poros e enfim compreendi Krishina e Maya. Nem estávamos mais na festa. Depois de mais um beijo perfumado, abri os olhos e vi apenas Rennu. Em redor dela, o céu azul. E assim conheci o amor.
Eu, Nannu, professora de crianças maneiiy, pela primeira vez dava aulas pra uma jovem vihjn. Ela, Rennu, uma aluna brilhante, principalmente nas artes do amor. Depois da escola passávamos todas as outras horas nos amando. Eu me embevecia de perfume Rennu e dedicava-me a decorar cada milésima parte do corpo dela. Enfeitava o meu amor com flores e a perfumava com os óleos aromáticos trazidos de Délhi. Não me cansava nunca de beijar seu corpo todo, duas, três, quatro vezes ao dia. Ela me retribuía beijos e suspiros e já não voltava mais pra sua tribo.
Começaram a achar que estávamos doentes e se juntaram em rituais sagrados evocando os velhos deuses pra nos separar. A minha tribo achou melhor interferir de uma forma mais contundente e me arranjaram um candidato a marido. Vigiavam pra que não encontrasse mais Rennu. Não compreendiam, nem aceitavam que deitávamos como marido e mulher.
Não quis nem conhecer o rapaz. Raptei a minha amada e a levei para as montanhas onde nos deixariam em paz. Ficamos meses vivendo na mais profunda harmonia e felicidade. Eu anoitecia e amanhecia Rennu. Alimentava o corpo e a alma com Rennu. A qualquer instante do dia ou da noite a amava entre as flores encantadas das montanhas. E ela, minha amada, só sorria e me fazia feliz. Éramos uma, éramos a mesma moeda. Pássaros em filas dominavam o céu enquanto a minha língua, no canto da boca de Rennu, lambia mel... lambuzada boca encontrava o céu e os pássaros na minha língua escorriam mel.
Centenas de olhos e mãos vihjn e maneiiy nos arrancaram do nosso Nirvana e nos levaram de volta. Mais uma vez partiram-me ao meio. Não via mais Rennu, não cheirava mais Rennu, não recebia seus beijos. Como poderia agüentar tanto sofrimento? Haveria de encontrar uma maneira de selar definitivamente o nosso amor.
Mais uma vez raptei a minha querida. Contei-lhe meu plano e ela topou. Vestidas de branco nos casamos, abençoadas pelo sol. Amamo-nos por horas. Dei a ela a dose que nos transportaria para um mundo em que não nos alcançariam nunca mais. Em seguida tomei a parte que me cabia. Meu amor, minha doce e linda Rennu foi-se primeiro. Estou aqui a deixar escrita a nossa história para que avaliem o mal que nos fizeram neste mundo. E agora sinto que estou caminhando, estou deixando a dourada Índia, estou entrando, estou abrindo o portal, estou indo, estou vendo... Rennu, Rennu, Rennu...

enviada por Perséfone






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