06/05/2005 19:56
Esta sensibilidade, que é uma antena delicadíssima,
Captando pedaços de todas as dores do mundo,
E que me fará morrer de dores que não são minhas.
Encolhida sob o casaco fixei meu olhar no negrume da noite fria, sentada num canto qualquer do ônibus. Foi quando ela entrou e sentou ao meu lado. Uma mulher totalmente desalinhada, maltrapilha, descabelada e profundamente triste. Eu a achei linda naquela fragilidade gritante e tive uma vontade imensa de beijá-lá, de deitá-lá no meu colo, de lhe fazer um carinho e depois abraçá-lá forte e lhe dizer coisas bonitas... mas permaneci pateticamente estática, como se não me importasse, como se até a presença dela me incomodasse... Como posso ser assim tão covarde? Aquela criatura estava se desmanchando ao meu lado, todo o seu corpo pedia socorro e eu ali, apenas pensando em tocá-la, ao invés de tocá-la de fato. Por que a força que me paralisava era mais forte que a minha vontade?
Ela nem imagina o quanto me tocou, o quanto eu quis tocá-lá... Sequer passa pela sua cabeça que eu tive medo... medo de que ela me rejeitasse, pensasse mal de mim... Eu, que naquele momento, até faria amor com ela feliz da vida...
O ônibus parou e eu a vi descer pesadamente infeliz, a vi sumir na escuridão levando ao seu lado uma imensa solidão sem ao menos saber que alguém a observara e a amara por alguns minutos.
Fui pra casa e coloquei uma pedra sobre o meu coração pra conseguir dormir sem chorar.
Mas chorei.
enviada por Perséfone
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