28/04/2005 21:44
Um grito rouco rasga a tarde e fala de nuvens sombrias e carregadas feito uma tatoo de dragão desesperado num braço forte que abraça fraco. E uma princesa na África veste pela primeira vez um vestido azul-turquesa realçando seu colar de marfim e seus pés bonitos cheios de anéis dourados. Ela está a direita do pai e olha seu povo como quem assiste um programa na TV. Ela não sabe pedir nem mandar e os seus joelhos têm marcas de coisa que suporta um peso fora do comum. Seus olhos negros não piscam nem brilham, querem apenas voltar pra casa e servir de abrigo à areia do deserto.
Suspeita, na bagunça do meu quarto, releio páginas marcadas dos meus livros, como a procurar por provas contra mim, para apagá-las definitivamente. Eu que nem devia estar aqui assim, agora, e sim por aí a fazer qualquer coisa útil pra me manter cercada por coisas-dinheiro que valem mais que esta porção de nervos, músculos e carne que sou...
Uma corrente de vento invade o recinto e espalha meus papéis e neste instante eu me perco e sento escorando o queixo sem saber por onde começar a arrumar. Decido que não vale a pena o trabalho e simplesmente junto tudo, embolo e jogo no lixo. Gosto de produzir para o lixo, ele é o crítico mais sincero que conheço.
O amor que sinto não é um amor comum. É um amor-amor, tipo sei o que é mas não sei explicar. É um amor não -direcionado, não-medido, não-condicionado... É amor e entenda amor quem sabe o que é o amor. Porque cansei de explicar algo que, por enquanto, é só uma pergunta.
Ela diz, ela só diz, mas ela não sabe dizer o que diz, mas diz... assim como eu, assim como a burca usada por livre e espontânea vontade em Cabul. Dizer uma ordem, uma ação ou uma sensação e do verbo fazer nascer todas as coisas e no verbo perpetuar velhos costumes e para o verbo voltar toda a ilusão de saber e não-saber... Palavras são tudo que existe e que constroem corpos que ocupam lugar no espaço e enchem os nossos olhos, nossas mentes e nossos livros de uma impossível vida sem palavras. Elas não precisam de você, precisam dos seus olhos e elas os tem o tempo todo...
Ela veio até mim falar de sua solidão. Eu fui até ela falar da minha solidão. Mas ela abriu a boca e falou das flores que plantou, dos doces que comeu, dos lábios que beijou, das festas em que bebeu até cair, das camas em que deitou e de um tal amor mais largo que o Vitoria Lake, mais alto que o Empire State. Ela demonstrou tanta segurança, felicidade e pareceu estar tão envolvida em 1001 compromissos que solidão não cabia em sua agitada vida. Por minha vez fiquei quieta... o que dizer diante de tudo isso? Que por mais flores que tenha plantado, por mais doces que tenha saboreado, por mais lábios que tenha beijado ou não, por mais festas que tenha participado e bebido e dançado e fugido da realidade fumando um baseado, por mais camas que tenha deitado mesmo que apenas para dormir, por mais profundo e forte que tenha me agarrado a algum sentimento de amor, em nenhum momento me senti menos só?!
Não, eu não vou dizer nada, não adianta dizer coisa alguma, nada vai mudar, nada vai afastar de mim a solidão de existir, de estar aqui e ouvir alguém dizer que não conhece tal sensação quando o que mais me parece é que ela foge o tempo todo da solidão por conhecer apenas isso e estar cansada... Vou embora sem ter falado da minha solidão. Ela vai embora sem ter falado explicitamente de sua solidão. É tudo que temos. É tudo que damos. É tudo que recebemos.
enviada por Perséfone
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