19/04/2005 17:35
Olhinhos dormentes, escoriados e infantis, vivos, muito vivos... olham-me com farto brilho e curiosidade. Sorrio entre as vielas do meu quarto enquanto procuro o brinquedo que saltou pela janela. Espeto um dedo na poeira do sapato e peço calma ao meu pequeno observador.
Meu Deus, isto está mal! Está inflamado demais... deve doer quando ele dorme... eu, eu acaricio o seu rostinho e pergunto se quer chocolate e ele... ele pede o brinquedo e abaixa a cabecinha.
Eu olho ao redor e vejo tudo dinheiro. Não há uma só coisa que não seja dinheiro... pouco ou muito valor, mas absolutamente tudo é apenas dinheiro. Por isso o homem só pensa nisso, por isso o mundo só fala nisso... e aquele menininho ali sequer imagina que está diante de uma maluca que ao invés de procurar o seu brinquedo, está dominada por pensamentos e emoções, fitando, vidrada, o nada.
Finalmente encontro o que não passava de uma bola de futebol e a encaixo naquelas mãozinhas que simplesmente desaparecem embaixo do objeto tão cobiçado... ele se vai finalmente sorrindo e me deixa ali prostrada no chão tentando entender como é que o homem conseguiu transformar todo o mundo exterior em dinheiro. Vejo um filete de fumaça subindo ao céu e penso ser um sinal... um antigo sinal de um índio perdido neste tempo querendo me dizer alguma coisa... mas logo a realidade me toca as costas e noto a chaminé da casa do Zé Barba. Dona Maria está preparando a água para os banhos vespertinos de serpentina. Quem dera alguém, um ser qualquer de uma outra civilização, de uma outra época, de uma outra cultura, viesse mesmo ter comigo naquele instante e me respondesse os zilhões de perguntas que fervilhavam na cabeça...
Penso nos grandes feitos das mulheres ao longo de todos os séculos... foram poucos, porém notáveis. Safo de Lesbos, por exemplo, viveu numa sociedade essencialmente machista e numa época em que à mulher só era permitido casar e dar filhos aos seus grandes, ilustres e poderosos maridos... até a saúde da mulher dependia da disponibilidade do esposo em transar com ela para que não adoecesse, pois se acreditava que o pênis do homem e seu sêmem podiam purificar o corpo da mulher (semelhante à função do leite materno na vida dos bebês), o que ironicamente prova que na verdade esse era um poder da mulher e não do homem, já que somente as mulheres são capazes de amamentar os filhos com o próprio corpo... Enfim, quando tudo era vedado às fêmeas humanas, eis que surge a notável Safo... Ela salvou-se daquele destino miserável e tentou salvar mais algumas companheiras, indo habitar nas montanhas da ilha de Lesbos, na Grécia, onde viviam numa espécie de academia só para mulheres... fazendo amor entre si... e fazendo versos... vivendo em completa independência do patriarcado reinante da época. E a grande Safo criou os versos decassílabos... feito de proporções tão imensas que ainda hoje ecoa no mundo da poesia. E todos os grandes poetas da humanidade usufruíram desta métrica... Camões não teria escrito a sua obra-prima (Os Lusíadas) sem os versos decassílabos. Nem Ovídio teria feito nome sem eles... logo ele, o poeta e crítico de arte dos romanos, foi o que mais se empenhou em denegrir a imagem daquela que lhe forneceu a técnica perfeita da composição lírica. Ovídio é o responsável pelas inverdades acerca da notável poetisa grega... dentre outras coisas, escreveu que Safo se matou por um amor não correspondido de um homem... sendo que os fragmentos da bela e pungente poesia sáfica provam que ela amava loucamente as mulheres e que sempre lutou por viver à parte do claustofóbico mundo dos homens de seu tempo. E Safo incomodou tanto que teve a sua obra destruída num incêndio criminoso, além da sua memória denegrida, para que fosse definitivamente esquecida e não servisse de exemplo às outras mulheres... mas fragmentos de sua obra voaram no tempo e chegaram até nós informando-nos que a história da humanidade, que em sua quase totalidade exclui as mulheres dos grandes acontecimentos, na verdade não passa de ficção.
E volto a pensar que estamos cercados por dinheiro... vestimos, pisamos, moramos, andamos, comemos, bebemos, respiramos, enxergamos mais claro, comunicamos, lemos, escrevemos, tocamos, desejamos e vivemos em função do dinheiro... tudo ao redor de nós, em nós por fora e muitas vezes por dentro, tudo, tudo é apenas dinheiro... que decepção!
E a voz ecoa no ar:
Socorro, não estou sentindo nada!
enviada por Perséfone
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