Lágrimas das deusas

12/01/2005 16:20
Seu olhar sempre caído denunciava: tinha mudado, era mais triste e tinha fome, uma fome imensa. Por isso olhava tudo em volta como possibilidade de comida e devorava já com os olhos, depois com o nariz até que por fim metia as bocas.
Tinha vontade de matar tudo que pulsava porque há muito tempo estava seca por dentro. Queria um espelho. Precisava com urgência ver o seu rosto! Estaria mesmo ainda ali?
Buzinas, gritos, choros, foguetes infernais... era o barulho da rua ou sua cabeça explodindo sozinha? A caixa de remédios tinha todas as respostas imediatas. Estava suja e amassada de tanto ser manipulada. As crianças choravam e ela lhes entupia de remédio. As crianças brincavam e ela lhes entupia de remédio. As crianças sorriam e ela lhes entupia de remédio. Ah, se o pai delas soubesse o que se passava em sua cabeça! Pensamentos sanguinários, assassinos. Sentia ódio, raiva, ira, todo o tempo. Queria machucar-lhe. Queria ferir-se. Queria esganar todo mundo. E lembrava, quase sem querer, da voz de Clara dizendo que sempre queremos machucar quem amamos, e ela se continha. Encostava-se na parede fria e bolorenta do muro e chorava olhando os aviões no céu nublado. Tinha que entrar, tinha que preparar o jantar, tinha que dar banho nas crianças, tinha que pensar numa forma de não pensar, de não sentir mais dor. Ligava a televisão e se entregava.
Amanhã vem a mãe. Será que ela consertou o telhado do barraco? O telhado desabou numa noite fria e feriu a sua mãe que passou três dias no hospital. Quebrou-lhe uma costela e os óculos. Ela que era quase cega usando-os, agora não podia caminhar sozinha, nem cuidar das crianças. Ia ao banheiro e sujava tudo por lá porque demorava ou se enganava com o papel higiênico. Que espécie de vida era a sua? Perguntava-se o tempo todo. Viajar, sumir, precisava sumir por um tempo. Sempre se remetia à casa de Clara e se derretia em lembranças do passado. Foi feliz naqueles dias em que se cercou apenas por montanhas e pelos carinhos constantes da amiga-namorada. Devia ter aceitado o convite de Clara e ficado ali pra sempre. Mas não podia, não se permitia ser feliz por muito tempo, precisava retomar a sua vida, achar o seu príncipe encantado, casar, ter filhos. Era tudo o que tinha sonhado pra si. E foi o exatamente o que fez.
Clara também correu atrás dos sonhos dela. E agora precisava tanto revê-la! Mas como explicar que deu tudo errado em sua vida? Era a criatura mais infeliz do mundo, tinha dois meninos e o príncipe se tornou um sapo horrendo em menos tempo que os outros. Não importava. Clara ia entender. Clara sempre entendia. E lá se foi com os filhos respirar o ar puro das montanhas.
Clara estava tão bem no caminho que escolheu e ela ali, toda amargura e arrependimento. Clara a tratava com tanto carinho que ela nem acreditava que merecia. Deu logo um jeito de estragar tudo. Definitivamente não se sentia nem um pouco merecedora de alguma consideração e tratou de criar um forte motivo pra Clara lhe desprezar como ela mesma já fazia há um bom tempo. Com olhos, nariz e bocas foi devorando tudo que era vivo no mundo de Clara, quem sabe numa tentativa de destruir o que ela mesma não foi capaz de construir em seu próprio mundo? Clara, mesmo decepcionada, a tratou com tanto respeito e dignidade, que envergonhada quis voltar pra casa. E foi o que fez.
Será que voltará a se trancafiar entre quatro muros bolorentos e viver por mais um tempo essa vida de vítima que escolheu ou será que vai voltar a sorrir pra vida e se dar uma chance de ser feliz como merece?
Clara torce pela segunda opção com todas as forças do seu coração.

enviada por Perséfone






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