13/01/2005 16:13
Preciso me estender à filosofia contida dentro da caixa de veludo vermelha e buscar o buraco da agulha que me abrirá o céu. Voando alto com o som urbano, entrego-me ao cair da tarde chorando na chuva. Busco todos os sorrisos escondidos nos becos fétidos e faço uma faxina na miséria que grita nas ruas desta cidade. Espero a próxima canção tocar no rádio e decolo o mais rápido que posso pra juntar as palavras que escuto e tecê-las num disco etéreo ao som dos sapatos que passam na calçada do outro lado da parede branca. Dou mais um trago no cigarro imaginário e sinto os meus olhos grudados no anjo de gesso à minha frente, que sorri e me olha. Sempre noto anjos me olhando e fico sem graça. Porque sei que eles vêem a minha alma e eu não gosto de lhes dar um privilégio que nem mesmo eu tenho.
O mundo todo, eu sei, está dentro deste copo de água que acabei de beber. E eu me sinto maior que o mundo neste instante. Sou olhos e boca e braços e pernas e mãos de gigante. Jogo iôiô com um elefante na Índia. Depois vou dormir sobre o Himalaia, porque sinto muito calor durante a noite. E os monges tibetanos emparedados entoam mantras pra embalar o meu sono. Pisco um olho e o mar se mexe arrendondando melhor a terra. Fazem-me reverências no Japão e eu lhes dou o sol antes de todos os outros. Erguem-me bustos na Tailândia e eu lhes dou arroz para o jantar. Invocam-me em timbas africanas e eu faço chover no deserto do Saara. Compõem hinos em minha homenagem na Europa e eu lhes dou mais dinheiro. Rendem-me penitências na América e escolho Machu Pichu pra pendurar no meu pescoço.
Quero uma orquestra de pirilampos tocando agora mesmo no centro desta cidade. Quero que a faixa amarela do asfalto se estenda pelo meu corpo porque vou levar... ah, eu vou levar todo mundo pra passear naquele lugar silencioso que só cabe uma pessoa de cada vez. E eu vou me despedir de todos antes de mergulhar no sorvete sabor de amarelo que tem em cima daquele prédio azul. Vou sumir pelo túnel da aorta daquela mulher que passeia descontraída, com o cachorrinho Fluflu, e enfartá-la no início da manhã, quando ela ligar a ducha morna. Eu vou voar pra lá e pra cá até ver minhas asas rompidas pelo esforço e cair pesadamente no chão. Depois vou levantar, caminhar e adentrar a caixa de veludo vermelha para aprender filosofia.
enviada por Perséfone
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