18/01/2005 15:03
Não tem um pé deitado, tem dois... e uma mala pronta pra viagem. Busco o seu olhar na cenoura que cozinho pra me despedir porque já é preciso ir.
O céu está dividido e coincide com as grades da varanda que é o meu mundo neste instante. Nem teto, nem sombra, nem lar, tudo que queria é te abraçar um abraço monstruoso de quem nunca mais quer se soltar.
Ouço um sinal que diz que alguém quer me falar, mas me faço de surda. Não há outro. O mundo todo é só tinta de caneta e eu devo ter falado muita besteira pra você sumir sem se despedir. Tudo que me preocupa é não desligar os fios que nos ligam porque é noite, é sol, é dia, é lua, é chuva, é vento, é poesia, é vida saber que você está aqui, que está em algum lugar, que está simplesmente.
Eu preciso reaprender a sonhar. Deixar de ser nuvem, tornar-me mar. Vou sair na rua e pegar uma pessoa pra me olhar nos olhos e dizer-me que eu existo, que não sou uma alucinação apenas. Vou bater na cara dela pra ela reagir e me odiar à primeira vista, já que amar à primeira vista não funciona faz tempo. Vou amarrá-la no poste e cuspir-lhe na cara também. Depois vou soltá-la e ficar quieta.
E todos os deuses de todos os tempos virão em meu socorro e me transportarão para um mundo distante de onde só sairei transformada em deusa. Vou precisar de todas as flores do mundo pra construir o meu templo, porque não vou querer habitar, mas apenas ter pra onde olhar nos intervalos da existência imortal.
Enquanto a cenoura cozinha eu aprendo a esperar o tempo certo pra todas as coisas. E relembro as suas últimas palavras: Você falava em sentido, em alguma coisa fazer mais sentido agora que antes e eu me perco no significado do sentido na ponta do garfo que experimenta a cenoura ferindo-a profundamente. Descubro que estou maluca faz tempo e ninguém percebeu.
Como a cenoura como se ela já nem derretesse na minha boca. Bebo vinho por cima e sento na mala, mas não me sinto pronta pra viagem. Não tem dois pés deitados, tem um...
Olho o mundo da janela e vejo um menino sensível desenhando igrejas barrocas com as mãos calejadas de enxada. Ele não sabe mentir, não sabe fingir porque o seu olhar é um rolo enorme de papiro. E ele se mostra em signos reveladores. Mas ele nem sabe. É inocente. Em sua doçura lírica conduz fios de grafite no canción e retrata toda a beleza dos antepassados mineiros. Sorri seu triste olhar e flutua enquanto sonha com torres de igrejas e telhados coloniais.
Ele desenhou o meu mundo e por isso vou pregá-lo na parede.
enviada por Perséfone
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