Lágrimas das deusas

09/12/2004 11:40
“Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo.”
(Guimarães Rosa)

A mosca gosta da aparência da tarântula e se deixa grudar por ela. Corujas piam despertando consciências. A noite mostra a sua face mais escura aos que ainda mantém os olhos abertos. Do alto quase não se vê a cidade por causa da neblina. Parece um mar cobrindo tudo. Só as torres das igrejas despontam. Um sino toca ao longe. Mas é estranho que toque a esta hora da madrugada. Talvez tenha morrido alguém. Os pios de coruja o dizem também.
Bebo mais um gole de vinho pra esperar a chuva que se anuncia. As luzes da cidade piscam ameaçando ir embora, mas não vão. Nem chove também. Não tenho sono. Retorno à leitura de Sagarana. Estou na “hora e vez de Augusto Matraga”. Conto interessantíssimo que retrata bem a realidade do sertão do norte de Minas nas primeiras décadas do século XX. Leio avidamente tudo. Como sempre tiro lições que vou guardar pra mim pra, talvez, compartilhar mais tarde com quem precise delas. Ainda não consigo dormir. Nem estou suficientemente bêbada pra agitar esta noite que não passa. Sinto-me só. Sinto-me muito só. Nesta solidão tremenda, olho pra mim mesma, e acaricio os meus cabelos. Estou calma e ao mesmo tempo inquieta.
Os relâmpagos cessaram de clarear o céu e as torres das igrejas estão cheias de pássaros. Um cheiro de flor invade o meu nariz e olho ao redor. Que lindas! Várias rosas desabrocharam naquele instante. Elas passaram toda a noite neste processo, ali, bem ao meu lado e só pude ver o resultado final. E finalmente compreendi as palavras de Guimarães Rosa: “Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo.”Retribuí os sorrisos às rosas e, enfim, fui dormir.

enviada por Perséfone






Feed: Seja avisado quando este blog for atualizado :: (O que é isso?)