Lágrimas das deusas

30/05/2008 21:54
Os pés se movem e são carros. Os carros voam e são olhos. Prédios em gavetas. Luzes no escuro da cidade. No nada está de joelhos e abre os braços. Inclina o rosto até o chão. Areia e pele se enroscam. Sente que abraça um deserto. A cidade de São Paulo é um deserto. Grandes e grades são todos os desertos. No vermelho do céu o sol se espalha, mas faz frio. E as almas frias se acotovelam nos trens e nas ruas. Faróis abertos e fechados vigiam piscando quem passa. E pernas e rodas só passam. Espaços. Compassos. Eu sigo meus passos. Seus passos. Os passos. Pássaros e aviões disputam espaço. E segue se guiando pelas estrelas, como faziam os antigos navegadores.

A mão dá golpes no ar. Bate em portas surdas e sussurra, muda. Ecos. O som da própria existência. De dentro da bolha observa todas as máquinas de moer carne. Sons metálicos. Cor de almas. Todos os cheiros são gases tóxicos. Mistura de dinheiro, fome, sangue, indiferença, dores e amor. Dia e noite não existem separadamente. Estou em São Paulo.

enviada por Perséfone



06/02/2008 18:53
Convide a vida
A conviver
Em uma, em duas, em três
Nuvens dissipando a tarde
Tarde da noite outra vez
A casa junta os nomes
Que a solidão espalha
Ecos-gargantas e corredores
Esvaziando os pratos
Desses nossos amores...
Um beijo me faz lembrar quem sou
Um coração que não se abateu
E que se entrega ao seu e ao seu...

enviada por Perséfone



29/05/2007 14:42




Visões de Perséfone

Estaciona a asa e deita no túmulo sob nuvens brancas a contemplar o céu azul de dentro. Ao seu redor dois anjos sonâmbulos montam guarda. Morreu para o instante próximo. Morreu de música. Sementes pingam das suas mãos. Brotam flores roxas no chão. Seus passos ainda marcam a terra escura. Seu vestido longo e negro abriga ervas daninhas.

Oh, Narciso, aspire minha alma,
Neste vão do amor no baixo ventre...
Cupido neurótico atingiu-me os olhos
Nessa loucura comedida
Minha volta, minha ida...

Cabelos intensamente vermelhos onde tudo é cinza, é preto, é frio. Brilho estranho nos olhos. Sorriso pálido escavado, encontrado e arrancado de dentro do seu espelho. Presença que basta no espaço inóspito. Inteiramente fragmentos de anjos, sonhos, lágrimas, branco, preto e amor. Os pés descalços vomitam vulcões em erupções no peso do corpo que caminha pelo ar. Quisera só voar, mas agora vai descer ao Hades pela porta ao avesso do seu túmulo. É o inverno que chega.

enviada por Perséfone



03/04/2007 15:02






Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais
Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar no tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais
Eu quero carneiros e cabras pastando solenes
No meu jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas
Eu quero a esperança de óculos
E um filho de cuca legal
Eu quero plantar e colher com a mão
A pimenta e o sal
Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal, pau-a-pique e sapé
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros
e nada mais

(Casa no campo - Zé Rodrix e Tavito)


enviada por Perséfone



22/03/2007 21:45




Tá pensando o quê?
(Artur da Távola)

Se você pensa que sabe; que a vida lhe mostre o quanto não sabe. Se você é muito simpático, mas leva meia hora para concluir seu pensamento; que a vida lhe ensine que explica melhor o seu problema aquele que começa pelo fim. Se você faz exames demais; que a vida lhe ensine que doença é como esposa ciumenta: se procurar demais, acaba achando. Se você pensa que os outros é que sempre são isso ou aquilo; que a vida lhe ensine a olhar mais para você mesmo.

Se você pensa que viver é horizontal, unitário, definido, monobloco; que a vida lhe ensine a aceitar o conflito como condição lúdica da existência.

Tanto mais lúdica quanto mais complexa. Tanto mais complexa quanto mais consciente. Tanto mais consciente quanto mais difícil. Tanto mais difícil quanto mais grandiosa. Se você pensa que disponibilidade com paz não é felicidade, que a vida lhe ensine a aproveitar raros momentos em que ela (a paz) surge.

Que a vida ensine a cada menino a seguir o cristal que leva dentro, sua bússola existencial não revelada, sua percepção não verbalizável das coisas, sua capacidade de prosseguir com o que lhe é peculiar. E não o que os adultos, o consumo, o sistema lhe tentem impingir.

Que a vida nos ensine, a todos, a nunca dizer verdades na hora da raiva. Que desta aproveitemos apenas a forma direta e lúcida pela qual as verdades se revelam por seu intermédio; mas para dizê-las depois. Que a vida ensine que tão ou mais difícil do que ter razão, é saber tê-la. Que aquele garoto que
não come, coma. Que aquele que mata, não mate. Que aquela timidez do pobre passe. Que a moça esforçada se forme.

Que o jovem jovie. Que o velho velhe. Que a moça moce. Que a luz luza. Que a paz paze. Que o som soe.Que a mãe manhe. Que o pai paie. Que o sol sole. Que o filho filhe. Que a árvore arvore. Que o ninho aninhe. Que o mar mare. Que a cor core. Que o abraço abrace. Que o perdão perdoe. Que tudo vire verbo e verbe. Verde. Como a esperança

enviada por Perséfone



20/12/2006 17:16




Que o natal ilumine todos os corações humanos perfazendo a vontade de renascer, recomeçar e fazer tudo dar certo em busca da felicidade e da paz mundial. Feliz natal!! E que 2007 seja esplendoroso para cada um de nós!
enviada por Perséfone



14/12/2006 16:36




É primavera e eis que ressurge Perséfone... luz do Hades sombrio, agora vem pra iluminar a terra e florir os campos. Não mais chora no escuro subterrâneo. Secaram-se todas as lágrimas à medida que brotaram das entranhas da terra todas as flores que agora enfeitam os nossos dias.
enviada por Perséfone



11/08/2006 12:21
Uma explosão de gritos repentinos pela casa. Seres fora da razão não queriam ouvir, só queriam falar, ou melhor, gritar. Agredir era a necessidade geral. Palavras ditas de qualquer jeito, significando estados baixos das almas. Todo mundo estava errado. Todo mundo estava certo. Cada um com os seus motivos, extravasando dores inconscientes, medos, críticas, desabafos. Todos perto. Todos longe. Na loucura das palavras soltas gangorrando na atmosfera pesada, ecos entravam esporadicamente naqueles corações, até que a energia maior venceu todas as outras e tomou conta da situação. O amor estava em todos. Amor de uns para os outros. E o silêncio se fez. Porque o amor fala, principalmente, através dele. E na ausência dos gritos puderam se ouvir e se compreender. Os corações estavam calmos e próximos agora. E a atmosfera ficou feito o céu azul de agosto. Puderam sentir e entender que nada mais importava, a não ser o fato de se amarem verdadeiramente. Ninguém teve medo de ceder. Era a vontade legítima de todos: estar em harmonia; verem-se por dentro; comunicaram-se apenas com os olhos e com o coração no silêncio significativo que só os que se amam desfrutam. Fizeram as pazes sem pedir. Perdoaram-se no mesmo instante em que se olharam e sentiram que eram um só coração e que nele só habitava o amor.
enviada por Perséfone



22/07/2006 01:30
Subo à boca do mundo
Vislumbro por cima o céu,
Por baixo o mar
E todo esse azul esbarra em mim
Num beijo de língua
Línguas... as ondas... as ondas...
Ondas em mim
Fora de mim
Línguas roçando pedras
Pedras roçando corpos
Saliva-espuma escorre branca
Desaparecendo na areia
Amor sob as estrelas
Escuta uma música surda
Vinda do céu, do mar, das ondas,
De nós...

enviada por Perséfone



30/06/2006 17:50
Uma deusa sob o luar pronta pra me seduzir... esfrega o sexo na minha boca e sinto o gosto e o cheiro do que não posso resistir. Beija-me devorando minha alma e todo o meu corpo é uma chama... arrasta-me pela língua-serpente... e louca, de cabeça para baixo, geme ao calor da minha boca e goza olhando as estrelas. Derreto-me entre suas pernas.
Conduz-me por entre as estrelas nos seus olhos... joga-me na cama e afasta-se para introduzir uma música onde tudo já é puro êxtase... reaparece dançando para mim. Enlouqueço de vez e devoro aquela fêmea como se nunca mais fosse deixa-la sair de dentro de mim. Gemidos... sentidos... cheiros... gostos... tudo é ela e está nela e sai dela... e morro aos poucos nos seus braços sentindo tudo.

Quando se vive intensamente todas as coisas, fica difícil falar sobre elas... pra falar é necessário um distanciamento... o arder de saudade e desejo... e aí se tem a dimensão dos acontecimentos.

Vejo uma menina e vejo uma mulher... as duas são a deusa do meu coração, a mulher que eu amo. Estou perto agora e me sinto uma rainha. Cheiro o seu pescoço e o seu cabelo. Beijo a sua boca. Sinto a sua língua. Seguro a sua mão. Que o depois venha vestido de sol e lua e mar e do seu sorriso... e viverei tudo de novo, todos os dias.

enviada por Perséfone



19/05/2006 18:26
De que adianta toda essa poesia na minha alma se não consigo transformar as lágrimas no rosto em cristalina água a deslizar num finíssimo rochedo em meio ao mar infinito de ilusões desmedidas... linguagens e sentimentos desencontrados... olhos se entreolhando afastados... lados opostos, equivocadas direções.
Por que não tocar a estrela mais próxima se parece com lutar para ultrapassar os próprios limites? Esfrego a minha cara na lua pra ver qual é o formato do meu rosto e só vejo as crateras dela mesma... talvez sejam minhas... Uma procissão de gafanhotos passam sob meus olhos e eu queria ser a santa que eles poderiam carregar para algum lugar sagrado e receber suas oferendas e sua devoção incondicional. Eu queria só poder voar pra sumir no céu e ser o céu para sempre... asas de ar... sonhos de ar rarefeito... Toco o céu agora com as partes descobertas do meu corpo... esse vento, vindo, vendo, venenoso... ponho a máscara e respiro artificialmente... instinto de sobrevivência!
Flores de pedra brotam do chão da mão humana... formas infinitas, cinza-cor-pedra. Vejo a delicadeza nas formas brutas e sólidas, na curva da curva: copo-de-leite, dália, rosa, violeta, miosótis, margarida, lírio... flores altas, flores colossais, pesadamente flutuam no jardim dos amores em meio a tantas outras flores e de todas as cores...
Um ombro veio até mim e pude não chorar em paz... Fotos de montanhas e casas entranhadas nas montanhas, famílias se unindo e se despedindo... imagens de crianças brincando, carros passando, céu azul limpinho... dimensão palpável do universo que os meus olhos alcançam nus e marejados. Procuram me ver no mundo, parte de tudo e em todos... mas se fecham pelo avesso e atravessam a correnteza do rio de águas profundas e afundam o sol que sempre existiu ali, mas sabem que é em vão, porque ele volta sempre, sempre, sempre...


enviada por Perséfone



16/05/2006 20:27
Passou por ela... uma cara de quem nasceu apenas para varrer as ruas... a pele nutrida com o arroz e o feijão diário, tinha mapas, sinais, marcas... de fome, de dor, de ignorar quase tudo que poderia mudar a sua vida. Não sentiu pena... pessoas são como são e pronto! Dentro de si convulsões. Sentimentos se atropelam e a quebram na alma. Não quer mais pensar em nada... não quer pensar. Pra que pensar? A vida pra ela tem que ser como a vida para as árvores. Estar sempre ali, oferecendo sombra e frutos, mas sozinha, como sempre foi, como nunca deixou de ser... E isso é o que é, como “uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa”...
Sorriu quando uma observadora aluna lhe disse: “Professora, achei tão poética a cena em que a senhora teve que se abaixar no ônibus para apanhar aquele monte de livros que caiu de sua bolsa... pensei em quanto conhecimento a senhora carrega todos os dias para fazer chega-lo a nós... tanto peso, tanta vontade e nós, muitas vezes, só piscamos os olhos.”
Pensou que, na verdade, poético é o olhar de uma mocinha sensível que quis ver por um instante um pouco além do que os olhos mostram. A varredeira, a aluna, a árvore, a rosa e a professora são todas a mesma coisa... e estão no mundo, na poesia dos dias...

enviada por Perséfone



02/05/2006 16:14
Dois túneis no tempo. Do tempo. O olhar. Um singelo par de olhos. Bebia tudo no ar. Absorvia todo o nitrogênio ao redor. Mundo, pequeno mundo. Pensava. E apareciam raios em suas íris. Por trás dos óculos dois vácuos. Dois buracos negros. Portais de Universos eqüidistantes. Sua cabeça-liqüidificador subdividia tudo. Informações. Desinformações. Equívocos. Paradoxos. Rimas. Contradições. Constatações. Ultrapassava. Função-olhar servia pra nada. E pintava um quadro surreal com os cílios. Solvente: lágrimas. Vindas de dentro. Do avesso. De fora. Borrões. É o que é agora. Uma vida sem sentido. Lentes embaçadas. Mistura de tudo: cores. Feito branco no preto. Tudo virando nada. Teias de aranha no aro esquerdo. Cansou de ver. Quer saber. Mas vai dormir. Fecha os olhos. É sugada pelo próprio olhar-vácuo. Dentro de si. Um vazio assustador. Chora de dor. De medo. Quer voltar. Na superfície sabe lidar consigo mesma. talvez não. Mas agora não importa. Quer voltar. Só quer voltar. Único caminho conhecido. Medo do escuro. Do vazio. Pés inseguros. Tateam tontos. Falta chão. Vai cair.
Luz entra por frestas. Sol. Tudo equilibrado em seu sistema. Sabe que vai morrer daqui a cinco bilhões de anos. Sabe que vai durar pra sempre. Transformação de forma. Energia alguma se perde. Mãos com mãos. Apoio vindo de dentro. Força. Não sabia que tinha tanta. Tudo gira. Circula. O efêmero tem gosto. Sabia. Não sentia. Não precisa mais voltar. Nem ficar. Encontrou-se. Espelho de si. Sorri. E levanta. Só o tempo.

enviada por Perséfone



28/04/2006 10:18
Um caminho de flores pela manhã me levando até o meu amor... cantarolava músicas nossas, lembrava de frases significativas e sorria... boba, boba, boba, a mais boba apaixonada transeunte sob ipês.
Uma tela liga ao mundo, traz o mundo dela pra perto... possibilidades de ver, falar, sorrir, sentir... sua caligrafia digital, caracteres brotando das pontas dos dedos dela... seria tão impessoal e frio se não fosse ela do outro lado... mas já posso sentir seu calor antes mesmo de sentar em frente à poderosa máquina que me põe junto dela.
Chego feliz e fixo meus olhos na tela. Comandos abrem janelas, janelas, janelas... eu quero a janela dela. Ah, aqui está. Mas, meu Deus, cadê ela? Janela fechada num mundo tão repleto de janelas abertas... Cadê? Cadê? Cadê ela? Por que não está aqui me esperando? E vou esperar, esperar, esperar... jogar pedrinhas, chamar, sonhar... não consigo parar de sonhar... estou agora acordada a sonhar. Sonho com o sorriso dela construído pra mim, sonho com o som da sua voz no meu ouvido, sonho com o toque de sua língua no meu umbigo, sonho com uma cama de jasmins e ela no meio e eu no meio dela e o desejo infinito no meio de nós. Ah, eu sonho, como sonho!
Ausência-presença... vazio repleto dela... tudo aqui é ela, me leva pra ela, tem o cheiro dela, na tela o rosto dela que não vem... e eu chamo, chamo, chamo: Vem, meu amor! Vem, meu amor! Vem, meu amor! Um mantra. Concentro e repito mentalmente. Energia. Olho a janela fechada com olhos de Ali Babá. “Abre-te, Sésamo!” Profiro uma frase mágica pra traze-la até mim... a mais mágica de todas... Eu te amo!
E continuo a esperar cantando “A montanha e a chuva”:

Eu queria tanto lhe dizer
Da minha solidão, da minha solidez
Do tempo que esperei por minha vez,
Da nuvem que passou e não choveu...

Minhas mãos estão no ar
Como aeroporto pra você aterrizar
Também sou porto, se quiseres ancorar...
Sou ar, sou terra e sou mar...

Eu tenho a mão e você tem a luva,
Eu sou a montanhe e você é a chuva
Que escorre e some no final da curva
E beija o rio, pra abraçar o mar

É por isso que a montanhe tem ciúmes
Quando o vento leva a chuva pra dançar
Muitas vezes tudo acaba em tempestade
Raios gritam sobre a tarde,
Tardes dormem ao luar,
Anoitece a minha espera,
Amanheço a te esperar...

enviada por Perséfone



24/03/2006 15:59
Clara tem sempre uma festa pra ir, mas nunca vai. Foi convidada pra comemorar o aniversário do amigo Prema, num Sábado quente, à noite, num bar da moda em Ouro Preto, e apesar de todas as promessas de aparecer, Clara já sabe que não vai. Clara nunca quer saber de festa, badalação, gente desconhecida, multidão. Parece um bicho do mato feito seus alunos que pegam o ônibus escolar na beira da estrada. Eles saem do mato feito coelhinhos, esquilinhos. O asfalto vazio ao longe, mas de perto repleto de bichinhos ariscos de mochilas nas costas. Entram correndo. Uns sorrindo com o olhar baixo, outros gritando nomes amigos, fazendo festa e alguns sérios, mal cumprimentam motorista e professores.
No caminho de volta nunca parecem cansados. Falam alto, andam pelo ônibus e paqueram poltronas, colegas, flores, lua, professores. E vão descendo aos poucos, aos grupos, coelhinhos, esquilinhos, gatos da noite, instintos despertos embreados na noite, no mato, caminho de casa. Casas-tocas ao longe, muito longe umas das outras. Um rio no meio de tudo. Montanhas, plantações, gado. Uma capela, sempre uma capela. Afinal é Minas Gerais.
Clara lembra-se de quando ia pra escola. Ia a pé, não era longe. Levava a mochila pesada com todos os livros que usava. Nunca aliviava a carga levando apenas o necessário pra aula do dia. Levava tudo. A mãe nunca reparava que a menina carregava peso demais num corpo magro demais e que a coluna certamente estava sendo lesada. Clara tinha medo de tirar os livros da mochila, pois sabia que poderia não encontrá-los inteiros quando voltasse. Dividia o quarto com os irmãos e eles trituravam tudo que viam pela frente. Clara preferia não arriscar. Carregou aquele peso, a cada ano mais pesado, por todo o ensino fundamental. Clara sempre amou estudar. Aprendeu a ler sozinha, aos cinco anos de idade. Estava sempre observando as figuras das revistas em quadrinhos do tio e desejava ardentemente decifrar o que diziam, sobre o que conversavam. Até que foi apresentada às letras e descobriu que poderia juntá-las e formar palavras. Clara descobriu um mundo mágico: a leitura. Devorou, desde então, tudo que encontrou pela frente. Lia a qualquer hora e em qualquer lugar. Lia com luz e até sem luz, o que provavelmente lhe custou a saúde perfeita dos olhos. Depois clara descobriu que também podia escrever estórias e aí percebeu que faria isso a vida toda. Na sua infância sem televisão, Clara encontrou seu mundo, gostou dele e percebeu que ali permaneceria até o seu último dia.
Clara freqüentou o Museu-Escola, um projeto social patrocinado pelo IPHAN, que tinha como objetivo ensinar às crianças das cidades históricas a História e a importância da preservação do patrimônio histórico da cidade onde tinham nascido. Clara amava passar as suas tardes com as outras crianças (a faixa etária era entre os 7 e 15 anos, Clara freqüentou dos 8 aos 12 anos, quando acabou) fazendo as atividades e brincando. Até as brincadeiras eram relacionadas à História de Mariana e Ouro Preto. Clara adorava todos os monitores e eles também tinham muito carinho pela menina tímida, bonitinha, doce, esperta e perguntadeira que nunca faltava a nenhuma atividade marcada e que sempre fazia tudo com esmero e pontualidade. Clara foi até escolhida para ser a criança que representaria todas as outras, de todos os Museus-Escolas de Minas, para entregar um trabalho feito em conjunto, à Primeira-dama do Brasil na época, dona Marli Sarney, que viria em visita, à Mariana e Ouro Preto. E foi oque aconteceu. Clara, toda boba, aos dez anos, estava ali no Museu da Inconfidência em Ouro Preto, em meio a tanta gente importante, entregando à simpática senhora, um pacote que escondia um tesouro: os sonhos de tantas crianças, privilegiadas, por terem na época, quem se importasse com elas e lhes dessem a chance de ao menos sonhar. Em meio aos flashes dos jornalistas presentes, Clara viveu seus dois minutos de fama e sentiu-se feliz em sua primeira embaixada. Bons tempos aqueles... pena que um projeto tão bom como o Museu-Escola tenha durado tão pouco (cerca de 5 anos). Perdeu o patrocínio e teve que despedir os professores. E crianças como Clara ficaram tristes com as suas tardes vazias e longas de volta.
Clara acorda do cochilo e percebe que já está em Furquim (distrito de Mariana) para mais um dia de trabalho. Agora é uma mulher feita, com responsabilidades, problemas, sonhos e um amor no coração. Clara gosta de Ter crescido apesar da saudade da infância. Agora pode desfrutar de outros tesouros que só a maturidade oferece.
Clara não vai mesmo à festa porque dentro dela está rolando uma grande festa, a maior que pode existir na vida de um ser humano: o amor. E Clara só quer ser e estar pra vive-lo intensamente. Clara está finalmente amando. E adorando. Está feliz como foi feliz em pedaços da sua infância.

enviada por Perséfone



06/03/2006 10:57
Qual é a dimensão dos raios de sol por trás dos fios de cabelo da nuvem? A chuva molha a estrada e as árvores. Um carro segue em frente e lá longe fica parecendo um ponto vermelho sumindo, sumindo... Nos meus sonhos um falcão negro vem desembestado numa super moto, também negra, voando baixo no asfalto. Cabelos longos, longos, pretos, ao vento, vêm pra mim. Encontro de mundos. Encontro de tudo com tudo. Eclipse. “Hoje o céu está tão lindo...”
A sós com você será impossível não te tocar. Olhar, olhar, olhar... querer, querer, querer... beijar, beijar, beijar... Redemoinho de instantes. A vida toda. Momentos. Pedacinhos de você. Aos poucos, o muito. Nua. Roubando toda a poesia dos meus olhos. Igrejas barrocas ao fundo...
Que será das tardes, das montanhas, das ladeiras, das manhãs, do frio, das noites, diante de Ártemis? Uma deusa. Envolta. Em volta, anjos de Aleijadinho. Uma deusa. E eu tonta. Uma deusa, uma deusa, minha deusa...

enviada por Perséfone



31/01/2006 15:27
Como são lindas e intensas as tempestades de verão! Eu, ainda que me mantendo a seco no invólucro do carro, posso sentir cada gota da chuva que cai. Lavo a alma por fora e por dentro, sentindo as vibrações da água vertical e do som no último volume tocando Pink Floyd. Como viajo nas batidas de “Wearing the inside out” e “Lost for words”. Sinto-me esticar todo o corpo, enquanto fecho os olhos e me entrego ao fora de mim. Forças puxam-me pelas extremidades, pés, mãos, cabeça. Sinto-me fragmentando em sonhos, pedaços de poesia e música.
Lembro a conversa com ela. A sensação de saber que as coisas caminham com seus próprios pés. Seguem o seu destino alheias a minha vontade. Eu sabendo, não sabendo, não importa nada, a não ser pra mim, que trato de contemplar e aceitar a vida da forma como se apresenta. Ela ria sem graça, sabia que eu observava cada detalhe, cada pequeno gesto seu. Sabia que aquele momento era crucial pra determinar o caminho a seguir, o que esperar dela e de mim. Não a via como um pedaço de carne a ser devorado, não a via como mais uma para “pegar”. Eu sinto respeito por ela, sentimentos verdadeiros. Disse isso a ela, mas não consegui avaliar o impacto causado. Terminamos a conversa e eu sabia que algo novo brotara dela em nós. Da minha parte a certeza da incerteza. Nada esperar, nada planejar, nem sequer sonhar. As palavras têm mesmo o poder de construir ou destruir os sonhos de alguém. Mas elas sempre deixam rastro caso se deseje voltar atrás, recomeçar. Podem reescrever o discurso e resignificar as atitudes. Enquanto isso a melhor coisa a fazer é misturar as tempestades internas e externas, reclinar o banco, fechar os olhos e deixar-me arrebentar pela poderosa vibração da música.

enviada por Perséfone



16/12/2005 12:26
Ele queria que eu visse os dedos invisíveis entre os cinco dedos da mão e dissesse que tem dez dedos, mas eu disse: tem cinco, vejo apenas cinco, nada mais. E ele se sentiu superior a mim.
Joguei a cerveja pelo seu ouvido e colei o meu ouvido no seu peito. Queria ouvir o barulhinho de quando ela chegasse. Ouvi soluços.
Quando for dizer que te amo quero fazê-lo pessoalmente para apreciar cada cm da sua reação. Direi devagar e de repente, no meio de um assunto qualquer. Os meus olhos não perderão os seus por um segundo sequer. Eles me dirão: sonhar ou não sonhar; é toda a questão!
Vamos embora pra São Paulo, viver o que temos pra viver. Vamos embora pra São Paulo! Vamos embora pra São Paulo! Vamos embora! Pra São Paulo... pro infinito.

enviada por Perséfone



12/12/2005 17:49
Com quantas línguas
Você se revela a mim?
Com quantas línguas
Em quantas línguas
Você se revela a mim?
Com quantas línguas
Você se lambe em mim?
Em quantas línguas
Com quantas línguas
Você se lambe em mim?
Com quantas línguas
Você se transforma em mim?
Em quantas línguas
Com quantas línguas
Você se transforma em mim?
Com a sua língua
Ou com a minha?

enviada por Perséfone



10/11/2005 17:32
Mais uma vez a porta da garagem travou. Preciso avisar a empresa de segurança para vir dar um jeito no problema. Todos sabem que detesto chegar atrasada para qualquer compromisso. O que foi aquilo ontem no meu quarto? Pela primeira vez vi-me fugindo literalmente do meu marido. Ontem, pelo menos ontem, não fui capaz de mentir. Recusei seu abraço. Sei bem o porquê. Eu a vi por alguns segundos naquele ponto de ônibus. Como estava diferente! Os cabelos mais longos, a roupa, o semblante, tudo nela não estava mais familiar. Doeu tanto a certeza de que jamais será minha. Por Deus, a culpa é minha, eu sei. Ela tentou algumas vezes chegar até mim, arriscou-se, ousou, demonstrou seus sentimentos, mas eu, covarde, fiz-me de boba e hoje vejo que tamanha bobeira condenou-me a passar por ela como se fosse uma mera conhecida, baixando o olhar, evitando o confronto entre nossos olhos pra que ela, nem por um segundo, perceba o meu amor. Como fui tola! Tive aquela menina maravilhosa em minhas mãos, mas meu orgulho, meu medo e minha negligência a deixaram escapar. Sei que não terei mais chance.
Levo minhas filhas ao balé e enquanto as espero, sumo no meu carro ouvindo canções que ela nem sabe que separei pra pensar nela. Pelo menos assim a tenho próxima e ardo na febre de imaginá-la comigo. Não devia sair tanto. Preciso evitar estas ruas. Não quero mais vê-la linda, especial e longe demais de mim. Depois que der minhas aulas, irei pra casa dormir e fingir a felicidade que convém.


O silêncio é a base das palavras, é a base dos sons. Sim, sim, eu sei, mas fico pensando: E o que será a base do silêncio? Se o silêncio é fundador ele não tem base, mas como algo pode existir sem base? Devo estar raciocinando lento e fico perdendo tempo pensando em coisas inúteis que mesmo sendo assim não consigo parar de pensar.
A censura é um silêncio imposto. Você tem o que dizer, mas não pode fazê-lo por medo de punição. É incrível como podemos ser atingidos tanto pelo que dizemos quanto pelos discursos alheios. Pior ainda, até mesmo mais grave, é sermos atingidos pelo silêncio.
O silêncio é como o mar calmo, por isso é fundador, é base. Quando se transforma em ondas já não é mais silêncio. Agora é palavras, sons. Quando perdura no tempo e no espaço acaba sendo ensurdecedor. Bem mais que todos os trovões do mundo soando ao mesmo tempo.
Seria o discurso uma ausência de silêncio? Seria intervalo entre um silêncio e outro? Ou seria um silêncio ao avesso, ausente de si mesmo?
O que posso falar está intimamente ligado ao que posso calar. Se faço uma coisa ou se faço outra nada mais fiz que praticar silêncio puro ou silêncio transformado.

enviada por Perséfone



31/10/2005 16:17
Ao meu irmão, Maurinho

Pedaços de ser humano pelo chão. Briga entre irmãos. Quanto mais se ama mais se fere. Tanto busca que se perde. Onde está você aí dentro, que se esconde, onde, dentro de você? E esse rastro de fumaça, essa névoa, por que tanta escuridão se só quero olhar pra você? E te achar, te trazer ao caminho de volta, pois o mundo dá volta e você tem que se desprender da carceragem invisível que criou pra viver...
Colo quente, sua casa-útero, a mãe, sua mãe, seu abraço, o abraço que ela é e que só existe pra te acalmar. As suas lágrimas descem pelo avesso dos seus olhos, te fazem rio seco morrendo no mar; te fazem pássaro voando enquanto as asas queimam no ar.
O que será do chão sumindo sob seus pés? Este chão não se cansa de inventar desculpa pra sempre te acompanhar... Menino falante mudo... sua solidão quer conversar. Às vezes ela até grita, mas aí você sai e procura a companhia dos zumbis e mais uma vez adia o dia de estar frente a frente com o seu espelho e a sua voz. Os dias passam sem que você perceba que existe um mundo e uma vida que é pra você. O que não entende de jeito nenhum é que quem te sorri e te acolhe na rua sequer sabe a cor dos seus olhos. Já quem te bate e se zanga morreria por você... Se você sofre, a gente sofre. Se você ganha, a gente ganha. Se você se mata um pouco a cada dia, a gente vai junto com você. Não somos piores, nem melhores que você; somos você – uma coisa só! E só vamos estar bem quando você estiver bem.



Neste dia de outubro ainda escrevi

Vestígios de você naquele maldito computador logo pela manhã. Em mim várias sensações, mistura de saudade, amor, esperança, tristeza, frustração. A quase certeza da desilusão, por um minuto permiti-me acreditar que você me ama profundamente e senti-me incrivelmente feliz. Mas o peso dos meus pés chamaram-me à realidade e fui ler sobre a política nacional.
Num caminho solitário da cidade piso um tapete de flores amarelas de ipê. Um raro vento me faz companhia enquanto libero alguns pensamentos embolados. Mantenho o controle de tudo sossegada. Não tenho pressa nestes dias que são meus, inteiramente meus.
Vi mais um de seus trabalhos ainda que de longe e de um único ângulo. Achei lindo! Diferente de tudo que já vi. Você sabe que vivo em outro mundo... mas a sua obra é uma obra de arte. Sinto orgulho de você!
Uma procissão caminha pelas ruas desta religiosa cidade. Já é noite e vejo as velas, centenas de velas flutuando em filas indianas. Mantras em latim ressoam, sinos tocam. Sussurros femininos cantam sua fé. Tenho a impressão de estar vendo o santo de barro cantar e dançar. Paro e sento e santos fazem festa em mim. Eu até rezo. Peço amor, paz, saúde e proteção para mim e para o mundo. Compro uma cerveja. Bebo. Vou pra casa e fecho mais um dia neste mundo.

enviada por Perséfone



07/09/2005 16:25


ESTAMOS DENTRO DO UNIVERSO OU O UNIVERSO ESTÁ DENTRO DE NÓS?
enviada por Perséfone



06/09/2005 17:51
A noite promete. Encontraram-me perdida nesta metrópole e me convidaram pra sair. Casal simpático e maluco. Ela é doida por mim. Ele é doido por ela ser doida por mim. Estou entregue. Estou em mãos. Vou.
Ele me conhece desde que nasci. É um cara bacana. Respeitador. Ela conheci tem pouco tempo. Início deste ano demos uns bafons em Ouro Preto. Tomamos todas e amanhecemos no motel. Depois do café ela me beijou, queria me levar pra Pedra Azul, norte de Minas. Eu disse que não podia ir, aí ela disse que ia fazer um feitiço pra eu não esquecê-la. Achei graça e a abracei. Acho os dois um casal perfeito. Ele faz tudo que ela quer e vice-versa. Eles nunca brigam. Brincam o tempo todo.
Acharam-me. Ela disse que foi a bola de cristal. Disse que não vou escapar. Aí eu disse, não vou fugir. Podem vir me pegar. Vamos beber esta noite de setembro em Belo Horizonte. Vamos parar o tempo. Levem-me!
Um instante, por favor! Voltei. Era ele ao telefone confirmando. O encontro será às dez. Vamos de carro. Ele dirigindo. E ela no banco de trás me atormentando, como sempre faz. Estou com fome de gente. Vou.
enviada por Perséfone



05/09/2005 14:21

Ouvi correntes e ferros. Chuva da grossa caindo. Eu dormia e acordova, acordava, acordei. Escuro. Portas fechando e abrindo. Uma voz suave cantava enquanto abraçava meus joelhos e chorava uma sensação de saudade. Um rosto. O rosto. Derreti-me no vinho.
Cenas urbanas na cabeça. Uma praça grande. Luzes por todos os lados. Um oceano de carros e gente. Prédios vazios. Procurava na fumaça um sinal. Um caminho a seguir. Um nome de avenida. Um cruzamento de ruas. No centro. Na periferia da cidade. Minhas pernas caminhavam ao lado de outras. Placas e sinais de trânsito. Sempre um caminho a seguir. Eu indo. Em frente? Pra trás? Não sabia. Não importava.
Minhas mãos. Bêbadas mãos. Tateando o escuro. Prendendo-se em fios soltos, imaginados. Minha boca sorrindo. Bafo de vinho. Olhos fechados vendo tudo. Redor de mim, sim, não, porquê, aonde, com quem, por que, certezas. Olhavam-me. Não viam-me. Cabelo molhado. O vento secando. Perfume espalhando. Agora estava claro. Seguia em frente. Descia. Uma portaria. Entrei. Encontro. Sorrisos. Uma porta se abriu. Ambiente anos 70. Chá. Bebi a música e devorei as fotos. Achei uma capa para o meu livro. Décimo-quinto andar. Bom pra se matar. Alguém o faria?
Ela tem medo dos vultos na cidade. Esculpe moças em janelas de argila. Corações emendados. Carros de boi. Tem aversão à tecnologia. Medo do novo onde tudo é velho e conservado. Ela atende ao telefone e fica brava. Não gosta de cobranças.
As vozes discutem do outro lado da parede. Uma quer se foder. A outra quer proteger. O que salva um enterra o outro. Lágrimas. Forças repelentes se medem. Não tem vencedor. Tem dor.
Ouço a música mil vezes. A mesma música mil vezes seguidas. Obsessão no universo. My Immortal.
A tempestade continua a lavar a cidade. Aqui dentro o sol. Um par de olhos, meus sóis. Iluminam-me.
Quero o caminho de volta. Minha casa. O olhar doce e ingênuo da minha mãe. A vivacidade do meu sobrinho. O grande coração da minha irmã. A rebeldia dos meus irmãos. A força do meu cunhado. Meu canteiro. Minhas flores. Minha cama. Meus sonhos. Minhas montanhas. Minha pobreza material. A fome de tudo. Sou um ser faminto de tudo.
Tenho o direito de ser pobre. De viver perto de barracos e gente sem nada. Eles estão por todos os lados, mas são ignorados. É o lixo urbano. A cachaça ruim no boteco pra aliviar a fome e esquecer o nada que se é, tudo que se tem ao alcance. As drogas. A companhia de predadores. É tempo demais. O vazio é vazio demais. Olhar a si mesmo dói muito mais. Ser tratado como gente é sonho. Ninguém acredita que alguém ali é capaz de mudar o mundo. Eu acredito. Acredito no ser humano que tem fome na alma. Ele tem que buscar tudo desde o início. Cavar fundo. Descobrir tesouros dentro de si. Fora. Nos outros. Nada é fácil. Até a mais simples informação custa caro. Uma noite inteira de frio. Só numa rodoviária. Sem dinheiro pra comer e dormir numa cama quentinha. Mas vale a pena. Tudo em sua vida vale a pena. É um grande ser humano. Esculpido pelo tempo. Pelas adversidades. Sabe muito de tudo. Sente tudo com mais intensidade que os outros. Vê o que os demais não enxergam. Tem asas pra voar mais alto. E pode escolher. Fazer. Não fazer. Mas saber.
Ama pra sempre. Aconteça o que acontecer. Passe o tempo que passar. Presente. Ausente. Apenas ama.
É o mais sozinho dos seres. Mas aprecia a própria companhia. E sabe tudo que tem importância neste mundo. Vive um dia de cada vez. Pega tudo que precisa. Ama tudo que ja´conquistou. Sonha. E seu castelo vai crescendo aos poucos.
Sei que sou louca. Misturo primeira e terceira pessoa num texto. Mas não me importo com a crítica. Escrevo para as almas sensíveis.
enviada por Perséfone



01/09/2005 21:38
My Immortal
(Evanescence)


My immortal
I'm so tired of being here
Suppressed by all of my childish fears
And if you have to leave
I wish that you would just leave
Because your presence still lingers here
And it won't leave me alone

These wounds won't seem to heal
This pain is just too real
There's just too much that time cannot erase

When you cried i'd wipe away all of your tears
When you'd scream i'd fight away all of your fears
And i've held your hand through all of these years
But you still have all of me

You used to captivate me
By your resonating light
But now i'm bound by the life you left behind
Your face it haunts my once pleasant dreams
Your voice it chased away all the sanity in me

These wounds won't seem to heal
This pain is just too real
There's just too much that time cannot erase

When you cried i'd wipe away all of your tears
When you'd scream i'd fight away all of your fears
And i've held your hand through all of these years
But you still have all of me

I've tried so hard to tell myself that you're gone
But though you're still with me
I've been alone all along


Tradução


Minha Imortal

Estou tão cansada de estar aqui
Reprimida por todos os meus medos infantis
E se você tiver que ir
Eu desejo que você vá logo
A sua presença ainda persiste aqui
E não me deixa em paz

Essas feridas parecem não querer cicatrizar
Essa dor é muito real
Existe muita coisa que o tempo não consegue apagar
Quando você chorou eu enxuguei todas as suas lágrimas
Quando você gritou eu lutei contra todos os seus medos
Eu segurei a sua mão ao longo de todos esses anos
Mas você ainda tem tudo de mim

Você costumava me cativar
Pela sua luz ressonante
Agora eu estou destinada à vida que você deixou para trás
Seu rosto assombra
Todos os meus sonhos que foram um dia, agradáveis
Sua voz arrancou fora
Toda a sanidade em mim




Eu tenho tentado tanto, me convencer que você se foi
Mas embora você ainda esteja comigo
Eu tenho estado sozinha todo esse tempo.



enviada por Perséfone



29/08/2005 18:36
Num canto do quarto escuro minha cama me desalinha. Sou olhos a olhar minha mãe se mover mais a frente. Calada, inquieta, ofegante, asmática, perdida no mundo rezando. Nas mãos segura santinhos e orações e o terço e o lenço. Em sua cama apenas um lençol branco e dois enormes travesseiros sobrepostos. Ela só dorme em alturas. Depois do ritual religioso, tonta, sozinha, liga a TV ignorando minha presença adormecida. Olha a tela alheia a ela. Ouve vozes. Encosta nos travesseiros por um tempo, depois senta na cama. Abaixa a cabeça e entrelaça as mãos. Observo a sua corcunda e sinto pena dela. Parece sempre depressiva. Parece sempre uma sombra. Sonha com valores que não conhece. Faz planos sem acreditar realmente num futuro. Passa o resto do dia entregue a todo tipo de novela.
A realidade que pesa à minha volta não me deixa dormir em paz uma só noite. Sobressaltos acompanham meu sono. Sinto-me prisioneira de uma dimensão que me é familiar mas ao mesmo tempo desconhecida. Sinto tudo que acontece. Principalmente as dores. Passam-se cinqüenta anos em cinco segundos e me alivio num grito mudo. Luto com forças imensas e mais uma vez escapo. Consciência volta trazendo a droga diária da rotina preenchida com vários planos de fuga, todos anestésicos que tomo aos poucos pra não vomitar.
Escuto o choro do meu sobrinho no banheiro. Ele está com medo da chuva e quer se ver a salvo dela. Quer ver a salvo todos nós que ele conhece e ama. Temos que ficar perto dele. Vamos, minha irmã e eu, fazer a sua vontade. Mas ele ainda chora. Chama pelo pai que está no quintal. Pensa que o bicho papão Chuva o pegou e chora ainda mais alto gritando: Papai, papai, a iuva, iuva! Tentamos acalmá-lo dizendo que o pai está bem, mas ele só grita: Papai, papai, a iuva, iuva! Só acredita no que os olhinhos vêem. Um pequeno existencialista. A chuva passa mas deixa os trovões nas nossas consciências. O pequeno Rafael agora dorme tranqüilo. E nós ligamos a TV.

enviada por Perséfone



09/08/2005 15:01
Clarice
>> Caetano Veloso

Há muita gente
Apagada pelo tempo
Nos papéis desta lembrança
Que tão pouco me ficou
Igrejas brancas
Luas claras na varandas
Jardins de sonho e cirandas
Foguetes claros no ar
Que mistério tem Clarice
Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme, no coração
Clarice era morena
Como as manhãs são morenas
Era pequena no jeito
De não ser quase ninguém
Andou conosco caminhos
De frutas e passarinhos
Mas jamais quis se despir
Entre os meninos e os peixes
Entre os meninos e os peixes
Entre os meninos e os peixes
Do rio, do rio
Que mistério tem Clarice
Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme, no coração
Tinha receio do frio
Medo de assombração
Um corpo que não mostrava
Feito de adivinhações
Os botões sempre fechados
Clarice tinha o recato
De convento e procissão
Eu pergunto o mistério
Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme, no coração
Soldado fez continência
O coronel reverência
O padre fez penitência
Três novenas e uma trezena
Mas Clarice
Era a inocência
Nunca mostrou-se a ninguém
Fez-se modelo das lendas
Fez-se modelo das lendas
Das lendas que nos contaram as avós
Que mistério tem Clarice
Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme, no coração
Tem que um dia
Amanhecia e Clarice
Assistiu minha partida
Chorando pediu lembranças
E vendo o barco se afastar de Amaralina
Desesperadamente linda, soluçando e lentamente
E lentamente despiu o corpo moreno
E entre todos os presentes
Até que seu amor sumisse
Permaneceu no adeus chorando e nua
Para que a tivesse toda
Todo o tempo que existisse
Que mistério tem Clarice
Que mistério tem Clarice
Pra guardar-se assim tão firme, no coração

enviada por Perséfone



06/07/2005 19:31
Meus olhos em tela mostram-me o seu retrato, linda menina. A sua suavidade, o seu jeito de olhar no canto dos olhos, o seu sorriso entrecortado, a sua mineirice. Queria poder te dar o prometido beijo neste instante, mas ainda bem que estamos longe agora, pois te pegaria de um jeito que não sobraria nada para o dia seguinte. Passaria em você como um trator e talvez você ficasse com raiva de mim. Eu adoro quando considera todas as coisas que falo, por mais bobas que sejam. Você me deixa mole, mole... Estou completamente apaixonada por você! Desde o primeiro dia, desde que os nossos olhos se encontraram... talvez você soubesse, talvez não, mas o que importa isso se estou aqui me declarando agora? Linda, faz de mim o que quiser, sou toda sua! Abra todas as janelas pra esse amor entrar e me dê suas mãos, eu quero as duas, com todos os dedos que tenho direito! Continue sorrindo assim feito o sol numa manhã de primavera... que eu serei apenas felicidade e sonhos... e sua, somente sua, porque nada me custa ser somente sua.
enviada por Perséfone



30/06/2005 18:34
Quase

Seu rosto eu conheço, mas só em sonho quase te vi. Algo tão forte e quase real que me fez sentir saudade do abraço e beijo que quase trocamos.

Das nossas conversas quase densas nos finais de semana.

Saudade daquela tarde de quase inverno que assistimos a um quase filme de imagens, luzes e sombras, como sua alma.

Saudade do cheiro da chuva que você quase se permitiu molhar.

Da nossa tentativa de quase ignorar o mundo e sorrir para a vida.

De repente, no quarto escuro, um rosto que não conheço. Sonhava novamente. Ao despertar, a saudade quase continua. Em seguida, a ausência. Acendi a luz. Nada adiantou. Tanto faz o branco como o negro. A falta não cresceu e nem diminuiu. Optei por ficar quase estática.

Nossa vontade de reencontro é quase intensa. E nem sabemos direito quem somos.

Conheço sua intensidade. Quase senti todo o seu fogo, mas segurei apenas um graveto. Seus olhos me pediram. Seus lábios quase falaram. Eu quase me atrevi.

Uma quase dúvida me impediu. Sinto você esfumaçada. Como um dia nublado.

Preciso de uma paisagem quase completa. Você guarda mistérios quase insondáveis. Eu quase paro e disparo meu medo. Minhas emoções explodem por quase todos os meus poros.

O suor quase escorre pelas minhas costas nuas. Nossos sexos quase se encontram numa quase fusão. Nossas águas se transformam num quase perfume.

É quase sonho. É quase esperança. É quase paixão. É quase nada.

Sei que seus cílios brilham quando chora.

Sei que encontra conforto nos meus seios.

Sei quando está em êxtase ou desespero.

Sei onde encontrar seu calor quando o frio me ataca a alma.

Sei onde está o alívio para a dor da existência.

Sei. Ou quase sei. Não sei.

Ana Terra

enviada por Perséfone



29/06/2005 11:16
Vazio.



Suor e perfume. Impregnando meu corpo e meu quarto. Peles escorregadias acariciam-se mansamente. Num vai e vem primitivo.



Cinzeladas delicadas. Encontrei um molde vivo para minha arte. Uso
dedos como cinzéis. Preparo o molde com beijos. Quero realidade.
Arrepios. Uma obra perfeita.



Cheiro de incenso no ar. A pouca luz vem de um mosaico iluminado, que
se derrete aos poucos. As cores vão ficando mais vivas. Os pedaços
coloridos se consomem pelo fogo.



Trabalho intensamente. Tenho fome. Quero um alimento exótico. Inicio
seu preparo. Enquanto o molde vai tomando forma, procuro pelo sal que
se esconde nas entranhas. Dedos e língua sabem onde encontrá-lo.



Misturo com mel. Experimento. É exatamente o sabor que eu procuro. Hora
de saciar a fome. Sugo, mordo, calmamente. Bebo cada gota. A fome
aumenta. A fonte começa a estremecer. Lavas são atiradas na minha boca.
A loucura vai tomando conta de mim. Deixo. Não preciso de lucidez.



A estranha, linda e sensual escultura a tudo observa. Seus olhos em estado e graça.



O vulcão explode dentro da minha boca. Meu sorriso está lambuzado de
sal e mel. Abraço com força aquele corpo. Minhas costas ficam em
farrapos.



Percebo que estou voltando de outro mundo. Não quero chegar. Não quero
abrir os olhos. Não quero a realidade. Sinto que meus braços estão
preenchidos com algo. Nada parecido com aquele corpo. Meus olhos
insistem em abrir. A realidade se impõe, sem piedade. Um travesseiro
está amassado entre meus braços. Aperto-o com força e o arremesso
contra a parede.



O vazio se instala. Fundo. Dolorido. Real.



Acordo. Minha boca ainda guarda o sabor exótico.



A escultura? Ficou lá, guardiã de segredos. Lembro do molde. Será que
ele conseguiu imprimir sensações? Virou pó? Ou uma obra inacabada?

Ana Terra
enviada por Perséfone



24/06/2005 19:21

Carta escrita em 2070

"Estamos no ano de 2070, acabo de completar os 50, mas a minha aparência é de alguém de 85. Tenho sérios problemas renais porque bebo muito pouca água. Creio que me resta pouco tempo.

Hoje sou uma das pessoas mais idosas nesta sociedade. Recordo quando tinha 5 anos. Tudo era muito diferente. Havia muitas árvores nos parques, as casas tinham bonitos jardins e eu podia desfrutar de um banho de chuveiro com cerca de uma hora. Agora usamos toalhas em azeite mineral para limpar a pele.

Antes todas as mulheres mostravam a sua formosa cabeleira. Agora devemos raspar a cabeça para mantê-la limpa sem água. Antes o meu pai lavava o carro com a água que saía de uma mangueira. Hoje os meninos não acreditam que utilizava-se a água dessa forma.

Recordo que havia muitos anúncios que diziam CUIDE DA ÁGUA, só que ninguém ligava; pensávamos que a água jamais podia terminar. Agora, todos os rios, barragens, lagoas e mantos aqüíferos estão irreversivelmente contaminados ou esgotados.

Antes a quantidade de água indicada como ideal para beber era oito copos por dia por pessoa adulta. Hoje só posso beber meio copo. A roupa é descartável, o que aumenta grandemente a quantidade de lixo; tivemos que voltar a usar os poços sépticos (fossas), como no século passado, porque as redes de esgotos não se usam por falta de água.

A aparência da população é horrorosa; corpos desfalecidos, enrugados pela desidratação, cheios de chagas na pele pelos raios ultravioletas que já não têm a capa de ozônio que os filtrava na atmosfera. Imensos desertos constituem a paisagem que nos rodeia por todos os lados. As infecções gastrintestinais, enfermidades da pele e das vias urinárias são as principais causas de morte.

A industria está paralisada e o desemprego é dramático. As fábricas dessalinizadoras são a principal fonte de emprego e pagam-lhe com água potável em vez de salário. Os assaltos por um bidão de água são comuns nas ruas desertas. A comida é 80% sintética. Pela ressiquidade da pele uma jovem de 20 anos está como se tivesse 40. Os cientistas investigam, mas não há solução possível.

Não se pode fabricar água, o oxigênio também está degradado por falta de arvores, o que diminuiu o coeficiente intelectual das novas gerações. Alterou-se a morfologia dos espermatozóides de muitos indivíduos, como conseqüência há muitos meninos com insuficiências, mutações e deformações. O governo até nos cobra pelo ar que respiramos. 137m3 por dia por habitante adulto. A gente que não pode pagar é retirada das "zonas ventiladas", que estão dotadas de gigantescos pulmões mecânicos que funcionam com energia solar, não são de boa qualidade mas pode-se respirar, a idade média é de 35 anos.

Em alguns países ficaram manchas de vegetação com o seu respectivo rio que é fortemente vigiado pelo exército, a água tornou-se um tesouro muito cobiçado, mais do que o ouro ou os diamantes. Aqui, em troca, não há arvores porque quase nunca chove, e quando chega a registrar-se precipitação, é de chuva ácida; as estações do ano têm sido severamente transformadas pelas provas atômicas e da indústria contaminante do século XX.

Advertia-se que havia que cuidar o meio ambiente e ninguém fez caso. Quando a minha filha me pede que lhe fale de quando era jovem descrevo o bonito que eram os bosques, falo da chuva, das flores, do agradável que era tomar banho e poder pescar nos rios e barragens, beber toda a água que quisesse, o saudável que era a gente.

Ela pergunta-me: Papá! Porque acabou a água? Então, sinto um nó na garganta; não posso deixar de sentir-me culpado, porque pertenço à geração que terminou destruindo o meio ambiente ou simplesmente não tomamos em conta tantos avisos. Agora os nossos filhos pagam um preço alto e sinceramente creio que a vida na Terra já não será possível dentro de muito pouco porque a destruição do meio ambiente chegou a um ponto irreversível.

Como gostaria de voltar atrás e fazer com que toda a humanidade compreendesse isto quando ainda podíamos fazer algo para salvar o nosso planeta Terra!"

Documento extraído da revista biográfica "Crônicas de los Tiempos" de Abril de 2002.
enviada por Perséfone



22/06/2005 19:46
Meus passos pesados denunciam o frio na minha alma. Caminho no escuro da estrada que já conheço de cor e reparo no lago à esquerda, na árvore solitária à frente das luzes da cidade, à direita, e no coqueiro sufocado no telhado do velho prédio na frente. São os mesmos de sempre, mas agora eu vi. Vi, porque cansei de olhar só pra mim e morrer nos mesmos buracos negros. Vi, porque levantei o rosto e sequei as lágrimas tentando sorrir contemplando outro nada. Um nada mais completo, mais brilhante e muito mais reconfortante que o meu habitual cheiro de jasmim. Conheço um cara que diz a toda hora que quer viver tudo agora porque não sabe se vai amanhecer. Achava uma obsessão pela pulsão da vida e por isso mesmo não dava muita importância. Mas no fundo eu pensava a respeito daquilo e tentava compreende-lo. O resultado é que acabei achando tudo uma bobagem. O que adianta correr pra viver tudo hoje se isso simplesmente é impossível? Não tenho que viver tudo hoje... não sei o que é viver tudo... não sei o que seja tudo.
Paro e sento. Fotografia. Melhor, fotografias. Meus olhos clicando estáticos. Faço tanta confusão com as coisas simples e deixo tão organizadas as complexas. Sou um bolinho no mundo. Estufado e podre. Rolo escadas abaixo por mais de uma hora e chego. Não sei nome de nenhum lugar. Quero esquecer todas as pessoas que conheço e não conhecer mais nenhuma. Talvez eu devesse chorar mais um pouco, mas não consigo. Queria ser só um daqueles vasos de flores na janela. Pra ser mais sincera, eu queria mesmo é ser as flores, pra morrer de sede ao sol quando me esquecessem em alguma viagem divertida. Acho que deveria morar mais perto do mar e ter todo aquele nada pra olhar, por horas, enquanto as rugas tomassem meu rosto.
Vou simplesmente mudar de tom. Quero que todas as músicas deste dia toquem na minha alma de uma só vez neste instante. Sei, não haverá harmonia. Mas haverá um estrondoso barulho. Barulho com o barulho de mim e uma festa. Finalmente um sorriso na minha cara e eu desembaçando as paisagens, descascando tudo e me abrindo inteira feito um girassol. Mudar o mundo é simplesmente desviar o olhar e ver tudo que se oculta sob a aparência de nada. É insistir. Avante.
Enxergo o verde mais verde das folhas e o meu mundo fica colorido. Deixo o sol entrar por todas as minhas fendas e matar todo esse bolor que me devora. Continuo um bolinho no mundo. Apetitoso e lindo. Já posso concordar com o meu amigo. Viver tudo hoje. Tudo que é tudo hoje. Não mais fotografias. A vida agora é cinema. E sou a estrela maior.
Asas me levam às nuvens de onde posso contemplar as flores. Envio beijos. Amo todo mundo que conheço. Amo o dentro e fora de mim. Amo.

enviada por Perséfone



16/06/2005 18:49
Carteiras amontoadas pelos corredores do Instituto de Ciências Humanas e Sociais dizem que a tão esperada revolução aconteceu. Finalmente aquela voz que ecoou por esses mesmos corredores tempos atrás chamando todos à subversão foi finalmente ouvida. Andei em meio ao caos extasiada com tudo que via e lia pregado na parede. Vozes clamando justiça! Gente com muita atitude envolvida.
Com isso pude concluir que tudo que fazemos vale a pena. Seja o que for, como for, em algum momento vai render seus frutos e preencher a História. Este texto aqui é pra deixar registrado este momento de satisfação pessoal e parabenizar os estudantes de Letras e História pelos protestos que estão acontecendo nas dependências do ICHS.

enviada por Perséfone



10/06/2005 18:57
Apareça pra mim agora que percebi o seu sorriso e faça de mim a estrela que brilha no fundo dos seus olhos miúdos... Hoje procurei por você em cada canto desta cidade e te vi em todos os carros me convidando pra um passeio.
Pela primeira vez reparei que te acho linda e quis te encontrar pra dizer isso de qualquer jeito... Há muito você passa por mim me estendendo a mão num convite doce e eu nada percebendo dando a entender que estava fazendo doce. Na verdade meus olhos estavam voltados para o impossível numa tentativa insana de afastar de mim o que é de fato possível. Será que ainda tenho tempo pra estender a mão e tocar a sua? Nem sei o que faria primeiro... acho que diria que nunca imaginei nós duas assim, mas que sentir os seus lábios em mim agora é tudo que mais quero... Eu, eu olharia bem dentro dos seus olhos e te daria a certeza dos meus sentimentos. Eu te abraçaria pra sentir verdade nos nossos gestos e te diria as palavras mais doces que me viessem à cabeça. Eu faria tantas outras coisas... e olha só pra mim agora, aqui, assim, a desejar ardentemente te encontrar... Por que você não vem? Vem pra mim, doce menina... Desculpe todo o tempo que te fiz esperar, vem porque agora eu quero te amar... não vou mais deixar você escapar.
enviada por Perséfone



07/06/2005 14:19
Finalmente o seu poema, Lea...

Na doçura dos seus olhos
tem um mundo que sorri e só diz sim
Diz sim pra mim
Diz sim pro sim
Diz sim, enfim
E quer mais que tudo é ser feliz
Você é mais doce que doce de batata doce
e toca piano
e é tocada pelo piano
Adoro mulher que toca piano
E você canta amor e dor
ao piano
Que foi assim quando mais te vi
No canto da sua sala
Dedos ágeis e morenos
misturados ao branco e preto do teclado
fazendo música especialmente pra mim,
um concerto só pra mim...
Lisongeada me senti
quando tão lindo ouvi
você tocar
Tão concentrada e sensível
deixando-se levar
E nos intervalos buscando o meu olhar...
Um pássaro dando cambalhotas no ar
Brisa que não cansa nunca de acariciar
um rosto sedento
Saliva saciando infinita sede de uma boca ávida
Esta é você, querida
Pura música no ar...
enviada por Perséfone



19/05/2005 14:27
A morte do amor...

Todos os dias morre um amor. Quase nunca percebemos, mas todos os dias morre um amor. Às vezes de forma lenta e gradativa, quase indolor, após anos e anos de rotina. Às vezes melodramaticamente, como nas piores novelas mexicanas, com direito a bate-bocas vexaminosos, capazes de acordar o mais surdo dos vizinhos. Pode morrer em uma cama de motel ou simplesmente em frente à televisão de domingo. Morre sem um beijo antes de dormir, sem mãos dadas, sem olhares
compreensivos, com um gosto salgado de uma lágrima nos lábios. Morre depois de telefonemas cada vez mais espaçados, diálogos cada vez mais resumidos, de beijos cada vez mais gelados...
Morre da mais completa e letal inanição!
Todos os dias morre um amor, embora nós, românticos mais na teoria do que na prática, relutemos em admitir. Pode morrer como uma explosão, seguida de um suspiro profundo (porque nada é mais dolorido do que a constatação de um fracasso), de saber que, mais uma vez, um amor morreu. Porque, por mais que não queiramos aprender, a vida sempre nos ensina alguma coisa. Esta é a lição: qualquer amor pode morrer!
E todos os dias, em algum lugar do mundo, existe um amor sendo assassinado. Como pista desse terrível crime, surge uma sacola insuportável depois da discussão... Afinal, todo crime deixa as suas evidências!
Todos nós podemos ser um assassino. E podemos agir como age um assassino: podemos nos esconder debaixo das cobertas, podemos nos refugiar em salas de cinema vazias, ou preferir trabalhar que nem um louco, ou viajar para "espairecer", ou confessar a culpa em altos brados, fazendo do garçom o seu confidente...
Mas há também aqueles que negam, veementemente, a sua participação no crime, e buscam por novas vítimas em salas de batepapo ou pistas de danceteria, sem dor ou remorso. Os mais periculosos aproveitam sua experiência de criminosos para escreverem livros de auto-ajuda, com a ironia de quem tem muito a ensinar para os corações ainda puros.
Existem também os amores que clamam por um tiro de misericórdia: ainda estão juntos, mas se comportam como um cavalo ferido, esperando ser sacrificado.
Existem também os amores-fantasmas, aqueles que se recusam a admitir que já morreram. São capazes de perdurar anos, como mortos-vivos sobre a Terra, teimando em resistir apesar das camas separadas, beijos frios e burocráticos, e sexo sem tesão (se houver). Estes não querem ser sacrificados, mas irão definhar aos poucos, até se tornarem como laranjas chupadas.
Existem ainda os amores-vegetais; aqueles que vivem em permanente estado de letargia, que se refugiam em fantasias platônicas, recordando até o fim de seus dias o sorriso daquela ruivinha da 4a. série. Ou se faz presente na fã que até hoje suspira e delira em frente a um pôster do Elvis Presley.
Mas eu, quase já desistindo da minha busca, pude ainda encontrar uma outra classificação: os amores-vencedores. Aqueles que - apesar da luta diária pela sobrevivência, das infinitas contas a pagar, da paixão que decresce com o decorrer dos anos, da mesa-redonda no final de domingo, das calcinhas penduradas no chuveiro e das brigas que não levam a nada - ressuscitam das cinzas e se revelam fortes, pacientes e esperançosos.
Mas estes são raríssimos, e há quem duvide de sua existência.
São de uma beleza tão pura e rara que parecem lendas.
Um dia vou colocar um anúncio bem espalhafatoso no jornal:
PROCURA-SE UM AMOR - OFEREÇO GENEROSA RECOMPENSA.
Mas, no fundo, sei que ele não surgiria como por acaso...
O que esses poucos vencedores falam é de que esse amor foi suado, trabalhado, bem administrado nas centenas de situações do cotidiano. Não é um presente de loteria, de sorte, nem de magia. É simplesmente o resultado concreto daquilo que foi um relacionamento maduro e crescente entre duas pessoas.

Bird

enviada por Perséfone



13/05/2005 18:15
Sob o sol da Índia

Conheci Rennu num dia de sol. Era uma festa entre as tribos Vihjn e Maneiiy que comemorava mais um ano de convivência harmoniosa entre as nossas castas. Rennu era a mais colorida vihjn ali presente. Em seus olhos cor-de-fogo vi um espelho que fixava os meus. Em meio à dança ficamos tão próximas que podia ouvir o coração dela bater. Num repente demo-nos as mãos numa junção das cores da nossa terra-mãe, a Índia. Em meio a vermelhos, laranjas, amarelos, azuis, rosas e marrons encontramo-nos face na mão, lábios nos ombros dos cinco braços de Prema a envolver cinturas morenas. Senti sua saliva quente penetrar meus poros e enfim compreendi Krishina e Maya. Nem estávamos mais na festa. Depois de mais um beijo perfumado, abri os olhos e vi apenas Rennu. Em redor dela, o céu azul. E assim conheci o amor.
Eu, Nannu, professora de crianças maneiiy, pela primeira vez dava aulas pra uma jovem vihjn. Ela, Rennu, uma aluna brilhante, principalmente nas artes do amor. Depois da escola passávamos todas as outras horas nos amando. Eu me embevecia de perfume Rennu e dedicava-me a decorar cada milésima parte do corpo dela. Enfeitava o meu amor com flores e a perfumava com os óleos aromáticos trazidos de Délhi. Não me cansava nunca de beijar seu corpo todo, duas, três, quatro vezes ao dia. Ela me retribuía beijos e suspiros e já não voltava mais pra sua tribo.
Começaram a achar que estávamos doentes e se juntaram em rituais sagrados evocando os velhos deuses pra nos separar. A minha tribo achou melhor interferir de uma forma mais contundente e me arranjaram um candidato a marido. Vigiavam pra que não encontrasse mais Rennu. Não compreendiam, nem aceitavam que deitávamos como marido e mulher.
Não quis nem conhecer o rapaz. Raptei a minha amada e a levei para as montanhas onde nos deixariam em paz. Ficamos meses vivendo na mais profunda harmonia e felicidade. Eu anoitecia e amanhecia Rennu. Alimentava o corpo e a alma com Rennu. A qualquer instante do dia ou da noite a amava entre as flores encantadas das montanhas. E ela, minha amada, só sorria e me fazia feliz. Éramos uma, éramos a mesma moeda. Pássaros em filas dominavam o céu enquanto a minha língua, no canto da boca de Rennu, lambia mel... lambuzada boca encontrava o céu e os pássaros na minha língua escorriam mel.
Centenas de olhos e mãos vihjn e maneiiy nos arrancaram do nosso Nirvana e nos levaram de volta. Mais uma vez partiram-me ao meio. Não via mais Rennu, não cheirava mais Rennu, não recebia seus beijos. Como poderia agüentar tanto sofrimento? Haveria de encontrar uma maneira de selar definitivamente o nosso amor.
Mais uma vez raptei a minha querida. Contei-lhe meu plano e ela topou. Vestidas de branco nos casamos, abençoadas pelo sol. Amamo-nos por horas. Dei a ela a dose que nos transportaria para um mundo em que não nos alcançariam nunca mais. Em seguida tomei a parte que me cabia. Meu amor, minha doce e linda Rennu foi-se primeiro. Estou aqui a deixar escrita a nossa história para que avaliem o mal que nos fizeram neste mundo. E agora sinto que estou caminhando, estou deixando a dourada Índia, estou entrando, estou abrindo o portal, estou indo, estou vendo... Rennu, Rennu, Rennu...

enviada por Perséfone



10/05/2005 17:17
O mato vai sendo arrancado com a força e o suor daquele moço moreno e grisalho. Enquanto açoita, com a foice, ervas e pensamentos sob o sol escaldante do quase meio-dia, eu o imagino acampado no Pico do Itacolomy fazendo seu próprio horário e sendo-se em toda a sua plenitude de ser-se... sem patrão, sem salário, sem horários, sem calos, sem imposições, sem pressão de espécie alguma. Ele, as flores, o céu, a água, as frutas, o vento, a lua, o sol, as estrelas, a barraca, os sentimentos, as lembranças, o conhecimento e um laptop... Sim, sim, um laptop para registrar a qualquer hora do dia ou da noite seus pensamentos mais concatenados e poéticos e transmiti-los, quase que instantaneamente, ao mundo através da internet... conclamando os outros homens a serem livres como ele, alentando corações vazios, ávidos por palavras repletas de sentido que os dispam da máscara “Homem-máquina”. E ao mesmo tempo em que em todas as Universidades do mundo, aconteceriam diversos eventos relacionados ao conhecimento parido naquele momento, qual fosse, por exemplo, às duas horas da madrugada, seminários de temas livres, debates, mesas-redondas... onde os participantes seriam todos os seres que pensaram algo interessante ou fizeram uma incrível descoberta e que poderiam compartilhar seu conhecimento com o resto da humanidade simultaneamente, numa espécie de crepúsculo-energético-intelectual, cujo material é o que existe de mais especial em cada homem ou mulher na face da Terra.
O homem e o seu laptop no alto da montanha... os outros homens, mulheres e crianças circulando o mundo acadêmico gritando idéias ou simplesmente ouvindo e divagando... potencialidades exploradas e super valorizadas... o ser humano não mais desperdiçado em mecânicas e alienantes funções, que o faz sobreviver no escuro sendo apenas sombra de si mesmo. O ser humano feliz e hiper produtivo alimentando a vida, não o sistema. O homem simplesmente como homem, todo idéias.

enviada por Perséfone



06/05/2005 19:56
Esta sensibilidade, que é uma antena delicadíssima,
Captando pedaços de todas as dores do mundo,
E que me fará morrer de dores que não são minhas.


Encolhida sob o casaco fixei meu olhar no negrume da noite fria, sentada num canto qualquer do ônibus. Foi quando ela entrou e sentou ao meu lado. Uma mulher totalmente desalinhada, maltrapilha, descabelada e profundamente triste. Eu a achei linda naquela fragilidade gritante e tive uma vontade imensa de beijá-lá, de deitá-lá no meu colo, de lhe fazer um carinho e depois abraçá-lá forte e lhe dizer coisas bonitas... mas permaneci pateticamente estática, como se não me importasse, como se até a presença dela me incomodasse... Como posso ser assim tão covarde? Aquela criatura estava se desmanchando ao meu lado, todo o seu corpo pedia socorro e eu ali, apenas pensando em tocá-la, ao invés de tocá-la de fato. Por que a força que me paralisava era mais forte que a minha vontade?
Ela nem imagina o quanto me tocou, o quanto eu quis tocá-lá... Sequer passa pela sua cabeça que eu tive medo... medo de que ela me rejeitasse, pensasse mal de mim... Eu, que naquele momento, até faria amor com ela feliz da vida...
O ônibus parou e eu a vi descer pesadamente infeliz, a vi sumir na escuridão levando ao seu lado uma imensa solidão sem ao menos saber que alguém a observara e a amara por alguns minutos.
Fui pra casa e coloquei uma pedra sobre o meu coração pra conseguir dormir sem chorar.
Mas chorei.

enviada por Perséfone



03/05/2005 15:50
Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
Assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.
Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
- já me aconteceu antes.
Pois sei que
- em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade -
essa clareza de realidade
é um risco.
Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.

Clarice Lispector
enviada por Perséfone



28/04/2005 21:44
Um grito rouco rasga a tarde e fala de nuvens sombrias e carregadas feito uma tatoo de dragão desesperado num braço forte que abraça fraco. E uma princesa na África veste pela primeira vez um vestido azul-turquesa realçando seu colar de marfim e seus pés bonitos cheios de anéis dourados. Ela está a direita do pai e olha seu povo como quem assiste um programa na TV. Ela não sabe pedir nem mandar e os seus joelhos têm marcas de coisa que suporta um peso fora do comum. Seus olhos negros não piscam nem brilham, querem apenas voltar pra casa e servir de abrigo à areia do deserto.

Suspeita, na bagunça do meu quarto, releio páginas marcadas dos meus livros, como a procurar por provas contra mim, para apagá-las definitivamente. Eu que nem devia estar aqui assim, agora, e sim por aí a fazer qualquer coisa útil pra me manter cercada por coisas-dinheiro que valem mais que esta porção de nervos, músculos e carne que sou...

Uma corrente de vento invade o recinto e espalha meus papéis e neste instante eu me perco e sento escorando o queixo sem saber por onde começar a arrumar. Decido que não vale a pena o trabalho e simplesmente junto tudo, embolo e jogo no lixo. Gosto de produzir para o lixo, ele é o crítico mais sincero que conheço.

O amor que sinto não é um amor comum. É um amor-amor, tipo sei o que é mas não sei explicar. É um amor não -direcionado, não-medido, não-condicionado... É amor e entenda amor quem sabe o que é o amor. Porque cansei de explicar algo que, por enquanto, é só uma pergunta.

Ela diz, ela só diz, mas ela não sabe dizer o que diz, mas diz... assim como eu, assim como a burca usada por livre e espontânea vontade em Cabul. Dizer uma ordem, uma ação ou uma sensação e do verbo fazer nascer todas as coisas e no verbo perpetuar velhos costumes e para o verbo voltar toda a ilusão de saber e não-saber... Palavras são tudo que existe e que constroem corpos que ocupam lugar no espaço e enchem os nossos olhos, nossas mentes e nossos livros de uma impossível vida sem palavras. Elas não precisam de você, precisam dos seus olhos e elas os tem o tempo todo...

Ela veio até mim falar de sua solidão. Eu fui até ela falar da minha solidão. Mas ela abriu a boca e falou das flores que plantou, dos doces que comeu, dos lábios que beijou, das festas em que bebeu até cair, das camas em que deitou e de um tal amor mais largo que o Vitoria Lake, mais alto que o Empire State. Ela demonstrou tanta segurança, felicidade e pareceu estar tão envolvida em 1001 compromissos que solidão não cabia em sua agitada vida. Por minha vez fiquei quieta... o que dizer diante de tudo isso? Que por mais flores que tenha plantado, por mais doces que tenha saboreado, por mais lábios que tenha beijado ou não, por mais festas que tenha participado e bebido e dançado e fugido da realidade fumando um baseado, por mais camas que tenha deitado mesmo que apenas para dormir, por mais profundo e forte que tenha me agarrado a algum sentimento de amor, em nenhum momento me senti menos só?!

Não, eu não vou dizer nada, não adianta dizer coisa alguma, nada vai mudar, nada vai afastar de mim a solidão de existir, de estar aqui e ouvir alguém dizer que não conhece tal sensação quando o que mais me parece é que ela foge o tempo todo da solidão por conhecer apenas isso e estar cansada... Vou embora sem ter falado da minha solidão. Ela vai embora sem ter falado explicitamente de sua solidão. É tudo que temos. É tudo que damos. É tudo que recebemos.

enviada por Perséfone



26/04/2005 21:27
O purgatório de Dante é aqui. Ó, almas aflitivamente compatíveis com a minha, tirem esses engenheiros daqui! Não aguento mais essa gente reta que caminha em setas e só faz calcular. Foda-se a infalível matemática, pois o mundo fracassa todos os dias sobre os seus pilares... A ferrugem come as suas ferragens e as rachaduras na parede abrem um mar vermelho pra afundar a Indonésia... Quem se importa com escalímetros, esquadros, integrais e teodolitos? Parem de escavar buracos na Terra e levem os seus brinquedinhos Caterpillar pra servirem de escadas aos macacos!
Vermelho rasgado em amarelo, elo pra prender o vento no espaço quando tudo não é mais que o vazio. Um vaso de flores é uma porção de nada com forma e aparência de real, mas é apenas representação, como todo o resto do mundo. Irradiações semânticas transitam olhares ainda que distraídos ou fechados pra coisa alguma entender. Este frango não é o mesmo frango que você está vendo e que eu já vi e verei de novo. Nunca nenhum frango no mundo vai ser visto da mesma forma por duas pessoas diferentes!
Não quero ouvir falar em cálculos de estruturas porque nada é mais falso, inseguro, incerto que estruturas. Estrutura de que? Para que? Por que? Todas elas já são feitas do pó cinzento esparramado no chão e contém em si a potência da auto-destruição...
Se você engolir o S vai vomitar SS e defecar C, Ç, Z e X. afinal é tudo a mesma coisa!
A menina quer me beijar tanto quanto quero beijá-la, mas ela acha que fica mais fácil fazer isso na frente de uma galera bêbada e que esteja muito louca, assim ninguém vai julgá-la e ela poderá dizer a si mesma que não teve culpa alguma em querer beijar uma mulher. Eu disse a ela que não faço isso, eu não preciso de uma festa, eu não preciso de álcool, eu a beijo agora, aqui, na frente de todos, mas ela vai embora sorrindo sem graça e me deixa falando sozinha na praça...
Ela calcula e chega no número 29. Pergunto o que significa e ela me diz que é o tempo de sua carreira. Espantada, pergunto se ela assim tão jovem já tem 29 anos de carreira e ela responde que na verdade são 19, os outros 10 foi o tempo que ela passou sonhando.
Passei o fim de semana lendo sobre a estrutura da justiça e percebi que não há estrutura nenhuma. Vozes num tribunal clamam sua dor e choram em silêncio comedido perante um conjunto de ações seculares de juízes, promotores, advogados... a cadeira do réu esteve sempre naquele lugar e as cortinas se abrem e se fecham para apreciação do público que espera assistir sempre a mesma peça.
Observo a minha vizinha olhando com um estranho orgulho o seu marido fardado, fantasiado de polícia militar, indo para o trabalho, enquanto seus filhos assistem TV e aprendem que no Brasil o que importa de verdade é a imagem, a estética superficial e não a inteligência, a sensibilidade e o bom senso. Fecho a cortina e caio devagar na cama enquanto sinto a lua ser puxada por um satélite americano para um ponto mais baixo no céu. Só que dá tudo errado e a lua cai na superfície terrestre explodindo. Milhões de faíscas voam pelos ares e chegam até mim, queimando a minha pele. Pedaços de lua queimam e ardem pelo meu corpo e eu desfaleço, entregando-me ao vencedor. Finalmente uma força que me cala, que me beija, que me pára. Meu cérebro me abandona de vez e finco as unhas na pele macia da lua salvando-me da total extinção.
Descubro-me presa, completamente amarrada. Olho para mim, sorrio e inicio a minha libertação. Solto as correntes, arranco as grades, puxo a mordaça e grito um grito louco e sentido espantando todos os insetos que me circulavam. Meus olhos se acendem estrelas e guiam-me rumo a uma nova vida. Vida embrulhada na gaveta de cima a tentar, a chorar, a voar, a cair... pássaro sem asas voando com a imaginação e chegando, chegando, chegando...

enviada por Perséfone



19/04/2005 17:35
Olhinhos dormentes, escoriados e infantis, vivos, muito vivos... olham-me com farto brilho e curiosidade. Sorrio entre as vielas do meu quarto enquanto procuro o brinquedo que saltou pela janela. Espeto um dedo na poeira do sapato e peço calma ao meu pequeno observador.
Meu Deus, isto está mal! Está inflamado demais... deve doer quando ele dorme... eu, eu acaricio o seu rostinho e pergunto se quer chocolate e ele... ele pede o brinquedo e abaixa a cabecinha.
Eu olho ao redor e vejo tudo dinheiro. Não há uma só coisa que não seja dinheiro... pouco ou muito valor, mas absolutamente tudo é apenas dinheiro. Por isso o homem só pensa nisso, por isso o mundo só fala nisso... e aquele menininho ali sequer imagina que está diante de uma maluca que ao invés de procurar o seu brinquedo, está dominada por pensamentos e emoções, fitando, vidrada, o nada.
Finalmente encontro o que não passava de uma bola de futebol e a encaixo naquelas mãozinhas que simplesmente desaparecem embaixo do objeto tão cobiçado... ele se vai finalmente sorrindo e me deixa ali prostrada no chão tentando entender como é que o homem conseguiu transformar todo o mundo exterior em dinheiro. Vejo um filete de fumaça subindo ao céu e penso ser um sinal... um antigo sinal de um índio perdido neste tempo querendo me dizer alguma coisa... mas logo a realidade me toca as costas e noto a chaminé da casa do Zé Barba. Dona Maria está preparando a água para os banhos vespertinos de serpentina. Quem dera alguém, um ser qualquer de uma outra civilização, de uma outra época, de uma outra cultura, viesse mesmo ter comigo naquele instante e me respondesse os zilhões de perguntas que fervilhavam na cabeça...
Penso nos grandes feitos das mulheres ao longo de todos os séculos... foram poucos, porém notáveis. Safo de Lesbos, por exemplo, viveu numa sociedade essencialmente machista e numa época em que à mulher só era permitido casar e dar filhos aos seus grandes, ilustres e poderosos maridos... até a saúde da mulher dependia da disponibilidade do esposo em transar com ela para que não adoecesse, pois se acreditava que o pênis do homem e seu sêmem podiam purificar o corpo da mulher (semelhante à função do leite materno na vida dos bebês), o que ironicamente prova que na verdade esse era um poder da mulher e não do homem, já que somente as mulheres são capazes de amamentar os filhos com o próprio corpo... Enfim, quando tudo era vedado às fêmeas humanas, eis que surge a notável Safo... Ela salvou-se daquele destino miserável e tentou salvar mais algumas companheiras, indo habitar nas montanhas da ilha de Lesbos, na Grécia, onde viviam numa espécie de academia só para mulheres... fazendo amor entre si... e fazendo versos... vivendo em completa independência do patriarcado reinante da época. E a grande Safo criou os versos decassílabos... feito de proporções tão imensas que ainda hoje ecoa no mundo da poesia. E todos os grandes poetas da humanidade usufruíram desta métrica... Camões não teria escrito a sua obra-prima (Os Lusíadas) sem os versos decassílabos. Nem Ovídio teria feito nome sem eles... logo ele, o poeta e crítico de arte dos romanos, foi o que mais se empenhou em denegrir a imagem daquela que lhe forneceu a técnica perfeita da composição lírica. Ovídio é o responsável pelas inverdades acerca da notável poetisa grega... dentre outras coisas, escreveu que Safo se matou por um amor não correspondido de um homem... sendo que os fragmentos da bela e pungente poesia sáfica provam que ela amava loucamente as mulheres e que sempre lutou por viver à parte do claustofóbico mundo dos homens de seu tempo. E Safo incomodou tanto que teve a sua obra destruída num incêndio criminoso, além da sua memória denegrida, para que fosse definitivamente esquecida e não servisse de exemplo às outras mulheres... mas fragmentos de sua obra voaram no tempo e chegaram até nós informando-nos que a história da humanidade, que em sua quase totalidade exclui as mulheres dos grandes acontecimentos, na verdade não passa de ficção.
E volto a pensar que estamos cercados por dinheiro... vestimos, pisamos, moramos, andamos, comemos, bebemos, respiramos, enxergamos mais claro, comunicamos, lemos, escrevemos, tocamos, desejamos e vivemos em função do dinheiro... tudo ao redor de nós, em nós por fora e muitas vezes por dentro, tudo, tudo é apenas dinheiro... que decepção!
E a voz ecoa no ar:
Socorro, não estou sentindo nada!

enviada por Perséfone



15/04/2005 18:12
Ando pelas costas através das paredes da minha caverna e não sinto o calor óbvio que circunda a bolha sufocante onde estamos inseridas. Um tatu me olha hipnotizado e eu lhe enfio um dedo no nariz úmido. Ele continua olhando como quem percebe que chorei um rio pela manhã... sim, ladies and gentlemen, eu chorei um rio... eu choro um rio todos os dias. Grande quantidade do sal e da água do mar saíram dos meus olhos... e sempre pela manhã... nas manhãs eu me derreto e passo as tardes me refazendo...às noites pareço inteira e normal. É sempre assim, sempre o mesmo ritual.
Hoje tomei uma sopa quente de céu, tão azul quanto saborosa. Lambi os beiços mal educada, estupidamente sentimental e faminta. Gaivotas voaram pelo meu estômago horas a fio me fazendo tremer de frio. A minha cabeça martelava notas musicais de um jazz alucinadamente melancólico. E na minha mais sensual imaginação eu te tirei pra dançar. Flutuamos o tempo de uma canção com os rostos coladinhos e nunca o mundo pareceu tão belo e confortável... uma luz se acende e cá estou olhando espantada pra mim mesma, descabelada e suja, como quem acaba de ser desenterrada.
A caverna treme por alguns segundos e passo os dias seguintes contando as fissuras. Não quero que entre ar puro no meu habitat... não suportaria respira-lo... meu corpo sucumbiria tão acostumado está com a atmosfera que criamos no escuro do tempo vivido aqui.
Cristais se partem sob meus pés e sinto um chão quente e úmido afundar. Agarro-me às mãos invisíveis que se estendem na penumbra e sinto o que é realmente esquecer. Fui esquecida. Esqueci. Pelo tempo, para o tempo, com o tempo... só o esquecimento resta. O branco sobre a terra são meus dentes... únicos sobreviventes do tempo.... um buraco negro onde tinha um sorriso abaixo dos redemoinhos que já dirigiram olhares apaixonados... ossos permeados de nada, cabeludos e ocos. São tudo que resta de uma usina de poemas e amores e dores e sonhos e fomes e desejos e sentimentos... com uma cruz e um mapa por cima. E flores murchas.

enviada por Perséfone



29/03/2005 20:49
> Eterno, é tudo aquilo que dura uma fração de
> segundo, mas com tamanha intensidade, que se
> petrifica, e nenhuma força jamais o resgata...
> "Somos donos de nossos atos, mas não somos
> donos de nossos
> sentimentos;
> Somos culpados pelo que fazemos, mas não
> somos culpados pelo que sentimos;
> Podemos prometer atos, não podemos
> prometer sentimentos...
> Atos são pássaros engaiolados,
> Sentimentos são pássaros em
vôo"._______


Mário Quintana

enviada por Perséfone



14/03/2005 13:14
Caramba, tadinho do meu blig... aqui abandonado há meses! Espero poder cuidar disso aqui o mais breve possível... por enquanto estou resolvendo outras questões importantes... Paciência, meu povo!
enviada por Perséfone



14/02/2005 16:34
Estou voltando... calma, estou voltando...
Saudades disso aqui.
Beijinhos...
enviada por Perséfone



22/01/2005 13:44
Tudo que a gente vê

É um corpo

Dentro de outro corpo

Dentro de outro corpo

Dentro de outro corpo

Dentro de outro corpo

Dentro de outro corpo

Dentro de outro corpo

Dentro de outro corpo

É um corpo

Dentro de outro corpo

É um corpo

Dentro de outro corpo

É um corpo

Dentro de outro corpo...

enviada por Perséfone



18/01/2005 15:03
Não tem um pé deitado, tem dois... e uma mala pronta pra viagem. Busco o seu olhar na cenoura que cozinho pra me despedir porque já é preciso ir.
O céu está dividido e coincide com as grades da varanda que é o meu mundo neste instante. Nem teto, nem sombra, nem lar, tudo que queria é te abraçar um abraço monstruoso de quem nunca mais quer se soltar.
Ouço um sinal que diz que alguém quer me falar, mas me faço de surda. Não há outro. O mundo todo é só tinta de caneta e eu devo ter falado muita besteira pra você sumir sem se despedir. Tudo que me preocupa é não desligar os fios que nos ligam porque é noite, é sol, é dia, é lua, é chuva, é vento, é poesia, é vida saber que você está aqui, que está em algum lugar, que está simplesmente.
Eu preciso reaprender a sonhar. Deixar de ser nuvem, tornar-me mar. Vou sair na rua e pegar uma pessoa pra me olhar nos olhos e dizer-me que eu existo, que não sou uma alucinação apenas. Vou bater na cara dela pra ela reagir e me odiar à primeira vista, já que amar à primeira vista não funciona faz tempo. Vou amarrá-la no poste e cuspir-lhe na cara também. Depois vou soltá-la e ficar quieta.
E todos os deuses de todos os tempos virão em meu socorro e me transportarão para um mundo distante de onde só sairei transformada em deusa. Vou precisar de todas as flores do mundo pra construir o meu templo, porque não vou querer habitar, mas apenas ter pra onde olhar nos intervalos da existência imortal.
Enquanto a cenoura cozinha eu aprendo a esperar o tempo certo pra todas as coisas. E relembro as suas últimas palavras: Você falava em sentido, em alguma coisa fazer mais sentido agora que antes e eu me perco no significado do sentido na ponta do garfo que experimenta a cenoura ferindo-a profundamente. Descubro que estou maluca faz tempo e ninguém percebeu.
Como a cenoura como se ela já nem derretesse na minha boca. Bebo vinho por cima e sento na mala, mas não me sinto pronta pra viagem. Não tem dois pés deitados, tem um...




Olho o mundo da janela e vejo um menino sensível desenhando igrejas barrocas com as mãos calejadas de enxada. Ele não sabe mentir, não sabe fingir porque o seu olhar é um rolo enorme de papiro. E ele se mostra em signos reveladores. Mas ele nem sabe. É inocente. Em sua doçura lírica conduz fios de grafite no canción e retrata toda a beleza dos antepassados mineiros. Sorri seu triste olhar e flutua enquanto sonha com torres de igrejas e telhados coloniais.
Ele desenhou o meu mundo e por isso vou pregá-lo na parede.

enviada por Perséfone



14/01/2005 16:31
Fale comigo, ó mundo! Eu grito, tento te perturbar e você me responde silêncio. Você é um balão que flutua, flutua e me leva dentro sem o meu consentimento.
Uma voz num fio sai por buraquinhos e entra no buraco do meu ouvido. Conexões me fazem reconhecer a sua voz e observo que somos formas de energia muito concentradas e que, por isso mesmo, conseguimos criar mundos dentro de mundos e ser tudo que existe no minúsculo ser que somos. Movimentos constantes de luz, repetições de sons, cadência de matérias diversas preenchem parte do espaço que os meus olhos alcançam e neste mesmo espaço noto camadas de tudo isso sobrepostas e ao mesmo tempo sendo uma coisa só. Meu coração bate as mesmas notas musicais da música que estou escutando. Tudo pulsa no mesmo ritmo e vejo meu corpo com um olhar de raio-x. Veias e artérias interligadas em todas as partes acompanham os movimentos dos meus dedos, mãos, braços e olhos, juntamente com o sistema nervoso, fazendo-me funcionar como uma usina nuclear. E tudo, tudo, dentro e fora de mim é só energia. A cor predominante é o vermelho, mas se acelero o olhar vejo tudo branco. Estico o olhar e percebo que o espaço sideral é formado por energias fragmentadas e cíclicas. Tudo interligado por forças magnéticas oriundas de todos os corpos em equilíbrio no sistema. Nós, as formas de energia mais concentradas, estamos espalhados em diversos pontos eqüidistantes nos finitos universos. A nossa força magnética é muito intensa e por isso estamos separados em pequenos grupos. Cada grupo está num planeta em galáxias diferentes. Se esses grupos estivessem próximos, se atrairiam violentamente e explodiriam tudo, daí só restaria o espaço de energias fragmentadas.
Falaste comigo, ó mundo! Mais até do que eu podia esperar desse seu silêncio ensurdecedor. Agora te respeito balão e entendo que não tenho escolha a não ser habitar dentro de você enquanto pulsar concentradamente.

enviada por Perséfone



13/01/2005 16:13
Preciso me estender à filosofia contida dentro da caixa de veludo vermelha e buscar o buraco da agulha que me abrirá o céu. Voando alto com o som urbano, entrego-me ao cair da tarde chorando na chuva. Busco todos os sorrisos escondidos nos becos fétidos e faço uma faxina na miséria que grita nas ruas desta cidade. Espero a próxima canção tocar no rádio e decolo o mais rápido que posso pra juntar as palavras que escuto e tecê-las num disco etéreo ao som dos sapatos que passam na calçada do outro lado da parede branca. Dou mais um trago no cigarro imaginário e sinto os meus olhos grudados no anjo de gesso à minha frente, que sorri e me olha. Sempre noto anjos me olhando e fico sem graça. Porque sei que eles vêem a minha alma e eu não gosto de lhes dar um privilégio que nem mesmo eu tenho.
O mundo todo, eu sei, está dentro deste copo de água que acabei de beber. E eu me sinto maior que o mundo neste instante. Sou olhos e boca e braços e pernas e mãos de gigante. Jogo iôiô com um elefante na Índia. Depois vou dormir sobre o Himalaia, porque sinto muito calor durante a noite. E os monges tibetanos emparedados entoam mantras pra embalar o meu sono. Pisco um olho e o mar se mexe arrendondando melhor a terra. Fazem-me reverências no Japão e eu lhes dou o sol antes de todos os outros. Erguem-me bustos na Tailândia e eu lhes dou arroz para o jantar. Invocam-me em timbas africanas e eu faço chover no deserto do Saara. Compõem hinos em minha homenagem na Europa e eu lhes dou mais dinheiro. Rendem-me penitências na América e escolho Machu Pichu pra pendurar no meu pescoço.
Quero uma orquestra de pirilampos tocando agora mesmo no centro desta cidade. Quero que a faixa amarela do asfalto se estenda pelo meu corpo porque vou levar... ah, eu vou levar todo mundo pra passear naquele lugar silencioso que só cabe uma pessoa de cada vez. E eu vou me despedir de todos antes de mergulhar no sorvete sabor de amarelo que tem em cima daquele prédio azul. Vou sumir pelo túnel da aorta daquela mulher que passeia descontraída, com o cachorrinho Fluflu, e enfartá-la no início da manhã, quando ela ligar a ducha morna. Eu vou voar pra lá e pra cá até ver minhas asas rompidas pelo esforço e cair pesadamente no chão. Depois vou levantar, caminhar e adentrar a caixa de veludo vermelha para aprender filosofia.

enviada por Perséfone



12/01/2005 16:20
Seu olhar sempre caído denunciava: tinha mudado, era mais triste e tinha fome, uma fome imensa. Por isso olhava tudo em volta como possibilidade de comida e devorava já com os olhos, depois com o nariz até que por fim metia as bocas.
Tinha vontade de matar tudo que pulsava porque há muito tempo estava seca por dentro. Queria um espelho. Precisava com urgência ver o seu rosto! Estaria mesmo ainda ali?
Buzinas, gritos, choros, foguetes infernais... era o barulho da rua ou sua cabeça explodindo sozinha? A caixa de remédios tinha todas as respostas imediatas. Estava suja e amassada de tanto ser manipulada. As crianças choravam e ela lhes entupia de remédio. As crianças brincavam e ela lhes entupia de remédio. As crianças sorriam e ela lhes entupia de remédio. Ah, se o pai delas soubesse o que se passava em sua cabeça! Pensamentos sanguinários, assassinos. Sentia ódio, raiva, ira, todo o tempo. Queria machucar-lhe. Queria ferir-se. Queria esganar todo mundo. E lembrava, quase sem querer, da voz de Clara dizendo que sempre queremos machucar quem amamos, e ela se continha. Encostava-se na parede fria e bolorenta do muro e chorava olhando os aviões no céu nublado. Tinha que entrar, tinha que preparar o jantar, tinha que dar banho nas crianças, tinha que pensar numa forma de não pensar, de não sentir mais dor. Ligava a televisão e se entregava.
Amanhã vem a mãe. Será que ela consertou o telhado do barraco? O telhado desabou numa noite fria e feriu a sua mãe que passou três dias no hospital. Quebrou-lhe uma costela e os óculos. Ela que era quase cega usando-os, agora não podia caminhar sozinha, nem cuidar das crianças. Ia ao banheiro e sujava tudo por lá porque demorava ou se enganava com o papel higiênico. Que espécie de vida era a sua? Perguntava-se o tempo todo. Viajar, sumir, precisava sumir por um tempo. Sempre se remetia à casa de Clara e se derretia em lembranças do passado. Foi feliz naqueles dias em que se cercou apenas por montanhas e pelos carinhos constantes da amiga-namorada. Devia ter aceitado o convite de Clara e ficado ali pra sempre. Mas não podia, não se permitia ser feliz por muito tempo, precisava retomar a sua vida, achar o seu príncipe encantado, casar, ter filhos. Era tudo o que tinha sonhado pra si. E foi o exatamente o que fez.
Clara também correu atrás dos sonhos dela. E agora precisava tanto revê-la! Mas como explicar que deu tudo errado em sua vida? Era a criatura mais infeliz do mundo, tinha dois meninos e o príncipe se tornou um sapo horrendo em menos tempo que os outros. Não importava. Clara ia entender. Clara sempre entendia. E lá se foi com os filhos respirar o ar puro das montanhas.
Clara estava tão bem no caminho que escolheu e ela ali, toda amargura e arrependimento. Clara a tratava com tanto carinho que ela nem acreditava que merecia. Deu logo um jeito de estragar tudo. Definitivamente não se sentia nem um pouco merecedora de alguma consideração e tratou de criar um forte motivo pra Clara lhe desprezar como ela mesma já fazia há um bom tempo. Com olhos, nariz e bocas foi devorando tudo que era vivo no mundo de Clara, quem sabe numa tentativa de destruir o que ela mesma não foi capaz de construir em seu próprio mundo? Clara, mesmo decepcionada, a tratou com tanto respeito e dignidade, que envergonhada quis voltar pra casa. E foi o que fez.
Será que voltará a se trancafiar entre quatro muros bolorentos e viver por mais um tempo essa vida de vítima que escolheu ou será que vai voltar a sorrir pra vida e se dar uma chance de ser feliz como merece?
Clara torce pela segunda opção com todas as forças do seu coração.

enviada por Perséfone



11/01/2005 14:45
Será que em algum lugar existe médico para a alma? E se eu o encontrar, certamente ele me perguntará onde dói; nesse momento ficarei atônita, pois a dor é por toda parte. O coitadinho assustado fugirá de mim. No máximo receitará um remédio de efeito ilusório.
O mundo interno é desconhecido totalmente. Cá, com meus botões,acho que aí está a cura. Mas é tão inascessível... Por onde eu começaria? Não tenho a mínima idéia. Enquanto isso vou me esvaindo, me consumindo inteira e em partes auxiliada por essa dor terrível, que nem mesmo uma dose cavalar de morfina aliviará.
Olho a paisagem. O céu azul em contraste com o verde das montanhas renascido com a primavera consegue parar o meu olhar. Minha alma inquieta fica quieta diante do belo. É como se reverenciasse a si mesma com toda sua complexa simplicidade. Tento entrar em harmonia com esse mundo, ainda que ache que quase nada aqui faz sentido.
Me pareço muito com o vento. Vou por toda parte: Atravesso desertos e mares; balanço as folhas das árvores e beijo as flores; Corto montanhas e cidades; até finalmente acariciar os rostos das pessoas e em seguida subir para bem alto, ir para o mais longe que puder, sem saber ao certo o rumo que devo tomar. sei que às vezes me comporto feito brisa e em outras, pura tempestade.Mas vento é só vento e não tem que explicar seus porquês.

enviada por Perséfone



10/01/2005 13:24
Oiiii, pessoal!
Depois de uma looooonga ausência, aqui estou pra enche-los de novo com as minhas choraminholas...
Na sexta, na rodoviária de Mariana, fui cobrada pela Érica: "Ei, entro no seu blig e não tem nada novo por lá... q coisa! Não dá nem vontade de entrar mais! Ou vc volta a postar ou vai perder uma leitora!"
Érica, hj estou postando especialmente pra vc... pode deixar q daqui pra frente vou tentar vir aqui com mais freqüência, ok? Mulher poderosa q me matou de inveja dizendo q está se preparando pra ir para Poa... Fórum Mundial. Vida de jornalista é outra coisa, né? Um beijo, querida!
Bem, gente... andei sumida pq estava escrevendo a bendita monografia de literatura. Agora posso até respirar mais aliviada, ufa!
Então é isso... obrigada por virem sempre aqui! Que 2005 seja um ano maravilhoso pra todos nós!
enviada por Perséfone



21/12/2004 09:27
Mais uma lindíssima canção que eu adoro!

Máquina de escrever
(Luis Capucho/Mathilda Kóvak/Pedro Luís)

Meu coração é uma máquina de escrever
As paixões passam, as canções ficam
Os poemas respiram nas prisões
Pra ler um verso, ouvir
Escutar meu coração falar
Até se calar a pulsação
Meu coração é uma máquina de escrever
No papel da solidão
Meu coração é, da era de Gutemberg
Meu coração se ergue
Meu coração é, uma impressão
Meu coração já era
Quando ainda não era a palavra emoção
Mas há palavras em meu coração
Letras e sonhos, brinquedos e diversões
Que passem as paixões
Que fiquem as canções
Dos poemas que os batimentos das teclas da máquina de escrever
Meu coração é uma máquina de escrever ilusões
Meu coração é uma máquina de escrever, é só você bater pra entrar na minha história

enviada por Perséfone



20/12/2004 09:43
Correria neste dia a dia que consome quase toda a minha atenção. Olhares percebidos, recebidos, retribuídos... moças, crianças, velhos... gente que passa na rua, que se senta ao meu lado, que cruza o meu caminho de alguma forma. Gente que me percebe, que me recebe e me dá a mão convidando pra dançar. Algumas pessoas estão iluminadas pelas luzes do natal, outras parecem sucumbir ao tempo fazendo de conta que esqueceram as datas festivas que se aproximam.
Caminho em direção ao vento, sentindo seu toque a me guiar e ouvindo a sua voz a sussurrar: "Não tenha medo do amanhã... você plantou, agora vai colher!" Não entendo bem porque, mas acredito em Eólios e fico tranquila. A primavera segue seu ritmo e já vislumbramos o verão na esquina do horizonte da próxima manhã... A ampulheta será virada mais uma vez pra vivermos tudo de novo sob o sol... recomeços... finalizações... realizações... sonhos. É o eterno retorno das estações, das emoções, das aspirações, das contradições. Venha o que vier, minha obrigação é estar aqui e viver!
enviada por Perséfone



15/12/2004 12:12
Um pouco de música pra alegrar o dia!

Tele-Fome
Composição: Paulinho Pedra Azul

Não alimento amor por telefone, isso é ilusão
Não adianta falar de amor ao telefone, isso é ilusão

Pra que tanto telefonema se o homem inventou o avião
Pra você chegar mais rápido ao meu coração

Não alimento amor por telefone, isso é ilusão
Não adianta falar de amor ao telefone, isso é ilusão

A fome de amar é real, não se traduz em fios
Meu ouvido não ama, apenas ouve os seus reclames

Vou desligar, não me ligue mais
A obrigação da tua voz é estar aqui
Vou desligar, não me ligue mais
A obrigação da tua voz é estar aqui...

No ouvido do meu coração, yeah, yeah
No ouvido do meu coração, heh

Não alimento amor por telefone, isso é ilusão
Não adianta falar de amor ao telefone, isso é ilusão

Pra que tanto telefonema se o homem inventou o avião
Pra você chegar mais rápido ao meu coração

Vou desligar, não me ligue mais
A obrigação da tua voz é estar aqui
Vou desligar, não me ligue mais
A obrigação da tua voz é estar aqui...

No ouvido do meu coração, yeah, yeah
No ouvido do meu coração, heh

Do meu coração...
Meu coração

Não alimento amor
Isso é ilusão, isso é ilusão

Não alimento amor pelo telefone
Não adianta falar de amor ao telefone, how, how...

Coração vagabundo


Composição: Caetano Veloso

MEU CORAÇÃO NÃO SE CANSA
DE TER ESPERANÇA
DE UM DIA SER TUDO O QUE QUER
MEU CORAÇÃO DE CRIANÇA
NÃO É SÓ A LEMBRANÇA
DE UM VULTO FELIZ DE MULHER
QUE PASSOU POR MEUS SONHOS
SEM DIZER ADEUS
E FEZ DOS OLHOS MEUS
UM CHORAR MAIS SEM FIM
MEU CORAÇÃO VAGABUNDO
QUER GUARDAR O MUNDO
EM MIM
MEU CORAÇÃO VAGABUNDO
QUER GUARDAR O MUNDO
EM MIM


enviada por Perséfone



14/12/2004 11:11
Traduzi dois poeminhas meus para o francês. Confiram!

Qualquer mudança cansa
Qualquer mudança pira
Querer andança?
Andando dança
Muda dança
Mansa inércia
Vida de planta
Pronta
Fincada no abismo vácuo
Do desejo inato
De nada ser
Nada querer.

Tout changement fatigue
Tout changement rend dingue
Vouloir démarrer
Dansant la marche
Marchant la danse
Inertie douce
Plante qui pousse
Prête
Piquée au fond
De l’abime creux
Du desir inné
Desir de ne rien être
De ne rien désirer.

Ser o que se é
Livre de ter que explicar amanhã
Livre da manhã
Livre do anoitecer
É agora e pronto
Sou isto!
Sou o que estou te dando
Sou o que estava faltando
Sou isto!
Um beijo de mulher que devora
Um agora
Sou esta mulher que se abre
Esta mulher que se parte
Esta mulher
Mulher
De mulher...

Être ce que l’on est
Sans lendemain
Libérée d’expliquer le matin
Et la nuit
Maintenant
Je suis.
Ce que je peux te donner
Ce qui manquait
Um baiser de
La femme qui dévore
Le present
C’est moi
Femme qui s’ouvre
Femme qui part
Femme
Femme de femme
C’est moi...

(Suzana, queria ter lido ao telefone pra vc...)

enviada por Perséfone



09/12/2004 11:40
“Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo.”
(Guimarães Rosa)

A mosca gosta da aparência da tarântula e se deixa grudar por ela. Corujas piam despertando consciências. A noite mostra a sua face mais escura aos que ainda mantém os olhos abertos. Do alto quase não se vê a cidade por causa da neblina. Parece um mar cobrindo tudo. Só as torres das igrejas despontam. Um sino toca ao longe. Mas é estranho que toque a esta hora da madrugada. Talvez tenha morrido alguém. Os pios de coruja o dizem também.
Bebo mais um gole de vinho pra esperar a chuva que se anuncia. As luzes da cidade piscam ameaçando ir embora, mas não vão. Nem chove também. Não tenho sono. Retorno à leitura de Sagarana. Estou na “hora e vez de Augusto Matraga”. Conto interessantíssimo que retrata bem a realidade do sertão do norte de Minas nas primeiras décadas do século XX. Leio avidamente tudo. Como sempre tiro lições que vou guardar pra mim pra, talvez, compartilhar mais tarde com quem precise delas. Ainda não consigo dormir. Nem estou suficientemente bêbada pra agitar esta noite que não passa. Sinto-me só. Sinto-me muito só. Nesta solidão tremenda, olho pra mim mesma, e acaricio os meus cabelos. Estou calma e ao mesmo tempo inquieta.
Os relâmpagos cessaram de clarear o céu e as torres das igrejas estão cheias de pássaros. Um cheiro de flor invade o meu nariz e olho ao redor. Que lindas! Várias rosas desabrocharam naquele instante. Elas passaram toda a noite neste processo, ali, bem ao meu lado e só pude ver o resultado final. E finalmente compreendi as palavras de Guimarães Rosa: “Quando nada acontece, há um milagre que não estamos vendo.”Retribuí os sorrisos às rosas e, enfim, fui dormir.

enviada por Perséfone



08/12/2004 13:07
"Eu, alquimista de mim mesmo. Sou um homem que se devora? Nao, é que vivo em eterna mutação, com novas adaptações a meu renovado viver e nunca chego ao fim de cada um dos meus modos de existir. Vivo de esboços não acabados e vacilantes. Mas equilibro-me como posso entre mim e eu, entre mim e os homens, entre mim e o Deus.
Vivo em escuridão da alma, e o coração pulsando, sôfrego pelas futuras batidas que não podem parar".
"Minha liberdade é escrever. A palavra é o meu domínio sobre o mundo."
"A vida é igual em toda a parte e o que é necessário é a gente ser a gente."
"Como é ruim ser paciente, como eu tenho medo de ser uma "escritora" bem instalada, como eu tenho medo de usar minhas próprias palavras, de me explorar..."
"Fiquei com vontade de chorar mas felizmente não chorei, porque quando choro fico tão consolada..."
"Não se pode falar de silêncio como se fala de neve. Não se pode dizer a ninguém como se diria da neve: Sentiu o silêncio desta noite ? Quem ouviu não diz."
"Escrevo porque encontro nisso um prazer que não consigo traduzir. Não sou pretensiosa. Escrevo para mim, para que eu sinta a minha alma falando e cantando, às vezes chorando..."
"Quando eu era criança, durante muito tempo pensei que os livros nascessem como as árvores, como os pássaros. Quando descobri que existiam autores, pensei: também quero fazer um livro."
"Tenho várias caras. Uma é quase bonita, outra é quase feia. Sou um o quê? Um quase tudo".
"Eu só escrevo quando eu quero, eu sou uma amadora e faço questão de continuar a ser amadora. Profissional é aquele que tem uma obrigação consigo mesmo de escrever, ou então em relação ao outro. Agora, eu faço questão de não ser profissional, para manter minha liberdade."
"E como nasci? Por um quase. Podia ser outra. Podia ser um homem. Felizmente nasci mulher. E vaidosa. Prefiro que saia um bom retrato meu no jornal do que os elogios."
"Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada."
"Antes dos sete anos eu já fabulava e já inventava histórias. Por exemplo, inventei uma história que não acabava nunca, é muito complicado explicar esta história. Quando eu comecei a ler e a escrever, eu comecei a escrever também pequenas histórias."
"Eu misturei tudo, eu lia livro, romance para mocinha, livro cor de rosa, misturado com Dostoievski, eu escolhia os livros pelos títulos e não por autores, porque eu não tinha conhecimento...fui ler aos 13 anos Herman Hesse, tomei um choque: O Lobo da Estepe. Aí comecei a escrever um conto que não acabava nunca mais. Terminei rasgando e jogando fora."
"Quando eu me comunico com criança é fácil porque sou muito maternal. Quando me comunico com adulto, na verdade estou me comunicando com o mais secreto de mim mesma, daí é difícil... O adulto é triste e solitário. A criança tem a fantasia muito solta."
"Em uma outra vida que tive, aos 15 anos, entrei numa livraria, que me pareceu o mundo que gostaria de morar. De repente, um dos livros que abri continha frases tão diferentes que fiquei lendo, presa, ali mesmo. Emocionada, eu pensava: mas esse livro sou eu! Só depois vim a saber que a autora era considerada um dos melhores escritores de sua época: Katherine Mansfield."
"É preciso coragem. Uma coragem danada. Muita coragem é o que eu preciso. Sinto-me tão desamparada, preciso tanto de proteção...porque parece que sou portadora de uma coisa muito pesada. Sei lá porque escrevo! Que fatalidade é esta?"
"O ato criador é perigoso", disse numa entrevista, "porque a gente pode ir e não voltar mais. Todo artista sofre um grande risco. Até de loucura."
"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..."
"Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca."
"Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é possível fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada."

Clarice Lispector

enviada por Perséfone






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